Mas no final quem paga a conta?

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Mesmo com tantos avanços legais e conceituais, ainda impressiona a postura reacionária de inúmeros segmentos da sociedade quando o tema é “destinação de recursos para entidades sociais”. Coloco a expressão entre aspas, pois dentre tantos imbróglios que perturbam este segmento de organizações, até a nomenclatura acaba sendo por vezes um problema, para que se compreenda a real importância do serviço prestado por estas instituições e seus trabalhadores.

O rótulo de pilantrópicas cunhado e difundido, intencionalmente por teóricos defensores de um estado executor de todos os serviços, programas e projetos até aqui ofertados por este segmento, infelizmente ganhou espaço na grande mídia e colocou no mesmo balaio centenas de milhares de entidades sérias e algumas outras tantas de má índole. Tal fenômeno somado a uma cultura milenar de voluntarismo e benemerência, criou no inconsciente coletivo da sociedade e no olhar de muitos gestores públicos, a ideia de incompatibilidade entre dinheiro e ONGs.

O problema ainda não acaba por aí. Após conseguirem suplantar a burocracia estatal, muitas organizações passam a encontrar nos convênios ou prestações de serviços para o Estado, uma alternativa de garantir o cumprimento da missão. Infelizmente a história nos mostra que o próximo capítulo desta novela geralmente é o calote público. Alegando falta de verbas, irregularidades na prestação de contas, ou mesmo não dando justificativas, vemos por todas regiões do Brasil entidades com anos de atuação sucumbindo com milhares ou por vezes milhões de reais a receber.

Mas então, o Estado é o vilão? De forma alguma podemos fazer essa afirmação. Nenhuma gestão pública seja ela municipal, estadual, ou federal, consegue dar conta de todas as ofertas,  sem parceiros de qualidade. A expertise e a qualidade de muitos trabalhos desenvolvidos por organizações da sociedade civil é reconhecido e valorizado por usuários, gestores públicos e por toda comunidade que convive com os projetos. Precisamos então avançar na concepção e implementação de estratégias que ressignifiquem as alternativas de acesso e repasse de recursos para tais organizações.

A Lei 13019, conhecida popularmente como Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil, contribui em alguma medida para muitos aspectos relacionados a contratualização entre governos e entidades. Contudo, nem de longe oferece novas respostas para o velho problema da sustentabilidade financeira.

Se quisermos continuar contando com serviços de qualidade, e alta capacidade de incidência política para a defesa e garantia de direitos, historicamente consolidada pelas entidades da sociedade civil, precisamos urgentemente discutir quem ou quais os atores que pagarão a conta.

É chegado o momento de sindicatos que representam esses trabalhadores, organizações patronais, usuários, e a sociedade como um todo, trabalharem juntos para que o fator dinheiro deixe de ser um mito na gestão de entidades.

Cada um de nós podemos contribuir neste sentido, seja levantando essa bandeira, promovendo debates em nossos espaços de construção e troca de conhecimento e mesmo contribuindo financeiramente para causas com as quais nos identificamos.

Veja a cerveja e com outros olhos

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Pode parecer estranho, um tanto quanto paradoxal, mas por incrível que pareça é sempre um desafio para mim, discutir ideias, propor conceitos, ou mesmo externar pequenas opiniões, sem que tais situações tragam consigo o carimbo recorrente de que se trata de algo dito por um cego. Preciso dizer que não tenho qualquer problema com a cegueira, e ao contrário disso, busco sempre fazer da realidade concreta que me coloca como pessoa com deficiência, uma oportunidade para trabalhar melhores dias de inclusão e acessibilidade.

O que procuro sempre evitar é que a condição de cegueira se sobreponha a outras características pessoais, que acabei desenvolvendo independente da cegueira. Por exemplo, quando me apresento como professor para uma nova turma na sala de aula, não preciso falar antes da cegueira, pois trata-se de uma condição humana, e como tal não precisa ser destacada nem tão pouco omitida.

Já fui guitarrista, presidente de Conselho de Políticas Públicas, palestrante e sempre busquei pautar minha atuação partindo da premissa que a cegueira é apenas uma das tantas coisas que me fazem ser humano. Conto-lhes tudo isso, pois nesta última semana abri uma exceção para essa minha postura, ou seja, acabei permitindo que a cegueira aparecesse se sobrepondo para além do necessário. Isso aconteceu em uma entrevista que dei ao Beercast Brasil, melhor podcast do país quando o assunto é cerveja.

Se você ainda não sabe o que é um Podcast, trata-se de uma espécie de programa de rádio, com o diferencial de poder ser ouvido e baixado a qualquer momento desde que se esteja conectado na internet. Ter a oportunidade de participar do Beercast e poder falar como o primeiro cego cervejeiro do Brasil (ao menos até onde me consta) foi fundamental para que eu pudesse contribuir para desmistificar um pouco sobre as limitações das pessoas cegas e sobre as inúmeras possibilidades abertas pela cultura cervejeira.

Falar de inclusão no mundo do trabalho, na escola e ambientes públicos é relativamente simples para nós militantes com tanto tempo de caminhada. Agora contar um pouco sobre as pequenas coisas que podem nos oportunizar grandes transformações no cotidiano, é sempre um grande desafio, pois imaginem só; para muitos, em uma sociedade ainda extremamente desinformada e por vezes preconceituosa, as palavras cego e cerveja não podem estar no mesmo espaço. Não podem porque, para muitos, ser cego é estar doente, logo quem está com alguma doença não bebe. Para outros a cegueira pode elevar o ser humano a uma posição quase de super-herói ou mesmo reduzi-lo à casta dos muitos pobres coitados, logo quem é herói e/ou coitado também não pode beber.

Há fora isso, ainda vivemos em um país que a cerveja é considerada pela maioria algo banal. Uma coisa que se bebe aos montes para extravasar, festejar, e o que vale mesmo é descer pra dentro. O país agora começa a descobrir aos poucos, que falamos de uma bebida com milhares de anos, de grande influência para enormes transformações culturais, tecnológicas, econômicas e sociais, vivenciadas ao longo da história da humanidade.

Falar como cego cervejeiro, apesar de ir na contramão do que costumo praticar,  me permite abordar uma série de questões urgentes e importantes para a sociedade. Os cegos podem ser mais do que o personagem Jeremias que pedia esmolas em Roque Santeiro, podem ser menos que Stevie Wonder e seu super ouvido absoluto, podem ser sim cidadãos com hobbies e atividades pouco tradicionais.

Para vender e falar de cerveja não é necessário transformar mulheres em objetos sexuais portadores de mensagens subliminares que se propõem serem mais eficientes do que o sabor e/ou toda a experiência em ter contato com a bebida. Beber cerveja pode ser sim algo saudável e diferente do que se tem convencionado os grandes meios de comunicação e o inconsciente coletivo.

Tenho certeza que assim, muito rapidamente quem ouviu ou ouvirá o Beercast, logo perceberá como tantas outras pessoas com quem interajo que a cegueira e a cerveja podem ser enxergadas a partir de perspectivas bem mais bacanas e complexas.

Te convido a visitar o link abaixo para que possamos em meu blog e nas redes sociais continuar esta conversa. Um brinde a novas possibilidades de enxergar a vida.

Segue o link: http://www.beercast.com.br/programas/um-papo-com-carlos-ferrari-beercast-114/

Depois da festa, a ressaca com sabor amargo dos vetos…

LBI

Posicionamento Institucional da Organização Nacional de Cegos do Brasil com respeito a Vetos praticados pela  Presidência da República a dispositivos da Lei Brasileira da Inclusão, também denominada Estatuto da Pessoa com Deficiência

Desde a redemocratização do país e da promulgação da Constituição Cidadã de 1988, o Brasil tem avançado na conquista de melhores e maiores patamares de civilidade. As leis orgânicas da Saúde, da Previdência e da Assistência Social, o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei de Diretrizes e Base da Educação, o Estatuto do Idoso, dentre tantos outros  diplomas legais, tiraram milhões de brasileiros e brasileiras da invisibilidade, assegurando à essas pessoas a condição de sujeitos de direito.

O segmento das pessoas com deficiência vivenciou e atuou de maneira substantiva durante todo esse caminho, fazendo do lema Nada sobre nós sem nós, um princípio estruturante de todas as lutas encampadas pelo segmento. Nestas últimas décadas, muito se avançou, e hoje podemos ver por meio de adequações arquitetônicas, comunicacionais e atitudinais, uma série de pequenas grandes transformações fruto da implementação de leis como 10.098 – Lei da Acessibilidade e da Convenção Internacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, documento que no Brasil ganhou força de emenda constitucional.

Ter um estatuto, com a prerrogativa de consolidar, e trazer tantos outros direitos até aqui negligenciados e violados, há muito tem sido  uma perspectiva  debatida pelo segmento, que foi ganhando corpo a partir de um Projeto de lei apresentado pelo Senador Paulo Paim em 2003.

De lá para cá, câmaras técnicas foram constituídas, grupos de trabalho criados, e uma série de encontros  setoriais nas cinco regiões do Brasil foram organizados. Os esforços dessa construção trataram desde a nomenclatura do futuro documento até as tantas demandas e possibilidades que se poderia inserir em uma lei com essa envergadura.

O resultado desta construção culminou em uma aliança suprapartidária que mobilizou parlamentares da Câmara e do Senado em torno da aprovação do PL, sinalizando para os mais de quarenta e cinco milhões de brasileiros(as) e seus familiares, um grande salto no sentido de resgatar perdas históricas resultantes de enorme exclusão social.

No último dia 06 de julho em meio a uma grande celebração, a Presidenta da Republica sancionou o documento que recebeu do legislativo. Contudo, apontou vetos que nos faz lamentar e se posicionar para que futuramente consigamos ter tais conquistas de alguma forma asseguradas por lei.

Essa manifestação não tem por intuito ofuscar o brilho de uma conquista com tamanha relevância. Trata-se de um chamado para que possamos nos mobilizar diante da perda de avanços civilizatórios que já dávamos como certos.

Vetar artigos de uma lei encaminhada para o executivo é direito constitucional da Presidência da República e alguns pontos, inclusive, reconhecemos como legítimos. Contudo, é inaceitável retrocedermos diante de ações afirmativas já pactuadas e amplamente discutidas pela sociedade, principalmente se considerarmos os motivos apontados para tanto. Abaixo apontamos os vetos com os quais discordamos, os motivos apontados pelo governo e pequenas  considerações que entendemos poder explicar o porquê dessa manifestação.

Veto de todo o Art. 29:

Art. 29. As instituições de educação profissional e tecnológica, as de educação, ciência e tecnologia e as de educação superior, públicas federais e privadas, são obrigadas a reservar, em cada processo seletivo para ingresso nos respectivos cursos de formação inicial e continuada ou de qualificação profissional, de educação profissional técnica de nível médio, de educação profissional tecnológica e de graduação e pós-graduação, no mínimo, 10% (dez por cento) de suas vagas, por curso e turno, para estudantes com deficiência.

  • 1º No caso de não preenchimento das vagas segundo os critérios estabelecidos no caput deste artigo, as remanescentes devem ser disponibilizadas aos demais estudantes.
  • 2º Os cursos mencionados neste artigo não poderão excluir o acesso da pessoa com deficiência, sob quaisquer justificativas baseadas na deficiência.
  • 3º Quando não houver exigência de processo seletivo, é assegurado à pessoa com deficiência atendimento preferencial na ocupação de vagas nos cursos mencionados no caput deste artigo

Razões apontadas para o veto:

“Apesar do mérito da proposta, ela não trouxe os contornos necessários para sua implementação, sobretudo a consideração de critérios de proporcionalidade relativos às características populacionais específicas de cada unidade da Federação onde será aplicada, aos moldes do previsto pela Lei no 12.711, de 29 de agosto de 2012. Além disso, no âmbito do Programa Universidade para Todos – PROUNI o governo federal concede bolsas integrais e parciais a pessoas com deficiência, de acordo com a respectiva renda familiar.”

Nossas considerações:

Estamos tratando aqui de uma ação afirmativa que amplia sob maneira as possibilidades de acesso de um público historicamente excluído dessas formações. Pessoas com deficiência para ingressar em um curso profissionalizante e em formações em nível superior, precisam de acordo com o atual cenário, superar um vácuo histórico de ausência do Estado em toda sua formação. Não temos escolas acessíveis, não existem materiais didáticos adaptados do tamanho da demanda, nem tão pouco suportes específicos como cuidadores e professores especialistas que possam atender às demandas de alunos no ensino fundamental e médio.

Vetar o artigo 29 significa fechar as portas para uma oportunidade histórica, que faria das instituições de ensino superior, ambientes mais diversos, plurais e inclusivos. Conquista semelhante já foi assegurada por companheiros do movimento negro, e claramente podemos perceber os ganhos proporcionados por essa vitória.

(Veto do inciso II do Art. 32):

Art. 32. Nos programas habitacionais, públicos ou subsidiados com recursos públicos, a pessoa com deficiência ou o seu responsável goza de prioridade na aquisição de imóvel para moradia própria, observado o seguinte:

II – definição de projetos e adoção de tipologias construtivas que considerem os princípios do desenho universal;

Razões apontadas para o veto 

“Da forma ampla como prevista, a medida poderia resultar em aumento significativo dos custos de unidades habitacionais do Programa Minha Casa, Minha Vida, além de inviabilizar alguns empreendimentos, sem levar em conta as reais necessidades da população beneficiada pelo Programa. Além disso, no âmbito do próprio Minha Casa, Minha Vida, é previsto mecanismo para garantia da acessibilidade das unidades habitacionais, inclusive com as devidas adaptações ao uso por pessoas com deficiência.”

Nossas considerações

Colocar o aspecto custo como sendo motivador para vetar tal inciso é reafirmar a ideia de que o que se destina para acessibilidade é gasto e não investimento. Ter casas projetadas na perspectiva do desenho universal significa não apenas qualidade de vida digna para seus moradores com deficiência e/ou mobilidade reduzida. Também se trata da possibilidade de melhor acolhida de familiares nesta condição, além é claro de se ter um ambiente adequado para eventuais limitações de curto prazo,  as quais todos brasileiros(as) estão sujeitos.

Atualmente os atuais mecanismos pensados a partir do programa minha casa minha vida, são paliativos que estão longe de contemplar verdadeiramente as  necessidades vivenciadas pelas pessoas com deficiência e seus familiares.

Veto No Art. 101 do Estatuto, em que propõe modificações na Lei 8.213,  o Art. 93, caput e incisos:

“Art. 93. As empresas com 50 (cinquenta) ou mais empregados são obrigadas a preencher seus cargos com pessoas com deficiência e com beneficiários reabilitados da Previdência Social, na seguinte proporção:

I – de 50 (cinquenta) a 99 (noventa e nove) empregados, 1 (um) empregado;

Razões apontadas para o veto

“Apesar do mérito da proposta, a medida poderia gerar impacto relevante no setor produtivo, especialmente para empresas de mão-de-obra intensiva de pequeno e médio porte, acarretando dificuldades no seu cumprimento e aplicação de multas que podem inviabilizar empreendimentos de ampla relevância social.”

Nossas considerações

Cabe lembrar que atualmente a Lei 8213 assegura a contratação de pessoas com deficiência e reabilitados pelo INSS por empresas com quadro a partir de cem funcionários. Ampliar essa obrigatoriedade para empresas com quadro a partir de cinquenta funcionários, significaria uma possibilidade de triplicar o pouco mais de um por cento de pessoas com deficiência em condições de trabalho,  que hoje conseguiram acessar o mercado formal. Em nossa visão, pior que o veto é a justificativa, que coloca pessoas com deficiência como sendo um fardo para empreendimentos de ampla relevância social.

Veto do Art. 106 do Estatuto, refere-se à isenção do IPI na compra de veículos:

Razões apontadas para o veto

“A medida traria ampliação dos beneficiários e das hipóteses de isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI, o que resultaria em renuncia de receita, sem apresentar as estimativas de impacto e as devidas compensações financeiras, em violação ao que determina a Lei de Responsabilidade Fiscal.”

Nossas Considerações

O veto acima relatado desmonta a concretização de um direito há muito pleiteado por pessoas surdas. Se pessoas com outras deficiências já tem esse direito, a lei traria uma correção histórica de uma violação de direitos de um segmento legítimo da sociedade Brasileira. A justificativa apoiada unicamente nos aspectos econômicos reafirma uma postura totalmente alheia a compromissos históricos firmados por esse governo e afronta mais de 9 milhões de pessoas deste país.

Veto do Art. 109 do Estatuto, referente às modificações do Código Nacional de Trânsito,  a proposta de acréscimo de parágrafos no Art. 154 do CNT:

“Art. 154. ……………………………………………..

  • 1º ………………………………………………………
  • 2º O Centro de Formação de Condutores (CFC) é obrigado, para cada conjunto de 20 (vinte) veículos de sua frota, a oferecer 1 (um) veículo adaptado para o aprendizado de pessoa com deficiência.
  • 3º O veículo adaptado deverá ter, no mínimo, câmbio automático, direção hidráulica, vidros elétricos e comandos manuais de freio e de embreagem.” (NR)

Razões apontadas para o veto

“As regras relativas a carros adaptados para fins de aprendizagem e habilitação devem acompanhar as necessidades reais da população, assim como os avanços técnicos. Desta forma, é mais adequado deixar que tal matéria seja regulada pelo Conselho Nacional de Trânsito – CONTRAN, nos termos do que prevê o art. 12, inciso X, do Código de Trânsito Brasileiro.”

Nossas considerações 

Com essa justificativa o poder executivo demonstra desconsiderar todo o debate construído com vistas a que se qualifique a habilitação de motoristas com deficiência. Empurrando a questão para o Contran se protela uma questão que há muito já poderia ter sido observada.

Muitas pessoas com deficiência física, em todo o território nacional, deparam-se com a seguinte dificuldade: para obter a isenção do ICMS na compra de um veículo adaptado, necessita comprovar sua habilitação de condutor. Por outro lado, para obter sua Carteira Nacional de Habilitação, ao se dirigir a um Centro de Formação de Condutores, não consegue se submeter aos testes práticos se não possuir veículo adaptado, pois os CFCs não dispõe de veículo adequado a sua deficiência.

Assim, esse público não consegue adquirir um veículo adaptado com a isenção do tributo por não possuir CNH e também não consegue obter sua CNH por não possuir o veículo adaptado.

Brasília, 08 de julho de 2015

Prof. Ms. Carlos Eduardo Ferrari

Secretário geral da ONCB e conselheiro nacional de saúde

Colapsocracia – O embate entre “vilões” e “mocinhos” na terra onde sempre a culpa é do outro…

brasil nova ordem mundial

Redução da maioridade penal, reforma política, ajuste fiscal, perda de direitos trabalhistas. O Brasil assiste de arquibancada, um duelo entre os poderes constituídos da República, onde a única certeza é que a coerência, o respeito às instituições, e o futuro do país, se mostram como questões secundárias para uma maioria esmagadora de agentes públicos que nitidamente elegeram como prioridade de atuação, vencer uma guerra cujo motivo, parece que boa parte deles nem lembra mais qual é.

Procurei batizar este texto com um termo que pudesse em boa medida traduzir como percebo o momento político em que vivemos. Sem respostas diante de inúmeras tentativas, me arrisco a inventar algo, e desde já deixo os haters à vontade para despejar suas verdades e fúrias incontidas, pois como alguém resignadamente um dia afirmou, “faz parte”. Com a expressão “colapsocracia”, pretendo conversar com vocês não sobre as consequências, mas sobre algumas das possíveis causas, de enormes retrocessos que temos testemunhado atônitos quando o assunto é defesa e garantia de direitos.

Assim, trago um termo que objetiva designar, a crise, a paralisia, e a total desorganização institucional, como sendo os ordenadores e detentores do atual poder vigente no país. Na contramão dos discursos de     muitos companheiros de luta e caminhada, me recuso a atribuir a um segmento específico ou a determinadas pessoas tamanha responsabilidade, até porque os apontados da vez, em minha opinião, não têm conteúdo e consistência para tanto.

Vejo por exemplo, Eduardo Cunha, atuando com enorme coerência, se considerarmos a postura e os compromissos firmados por ele, diante daqueles que o levaram a chegar onde está. Os eleitores do Presidente da Câmara e de outras centenas de parlamentares que se alinham com ele, são a prova viva de que nós, movimentos sociais, falhamos diante do desafio em avançar para além da promoção de acesso a renda e a determinados serviços públicos, pois valores que verdadeiramente poderiam transformar o país, talvez tenham sido apenas proclamados em artigos científicos, discursos rebuscados, ou mesmo em conversas e debates feitos de nós para nós mesmos.

Enquanto milhões de pessoas se sentem representadas e defendidas por seus parlamentares de discursos alimentados pela intolerância, pelo senso de vingança e por tantos outros princípios ultra-conservadores, outros tantos milhões se sentem traídos, pois seus eleitos fazem da prática política a negação  tácita de compromissos e discursos históricos recorrentemente firmados.

É preciso compreender que as disputas que acompanhamos em Brasília na verdade partem de nosso cotidiano. Se não conseguimos falar de verdade e principalmente com verdade, para ressignificar ideias que percebemos como equivocadas, verbalizadas por aqueles  que convivemos e até amamos, não é justo simplesmente apontar para um ou mais culpados, tirando dos ombros o peso da responsabilidade que sim, também  é nossa. Mudar o avatar no facebook é muito pouco para se superar a intolerância histórica contra grupos com orientações sexuais distintas. Se posicionar contra a redução da maioridade penal é importante, mas muito pouco, diante de um problema de segurança pública crônica que até hoje não mereceu atenção de qualquer dos eleitos desde a redemocratização do país. Fazer defesa intransigente de direitos trabalhistas conquistados é bacana, porém falta dizermos com maior clareza quais as propostas concretas que defendemos para a retomada do crescimento econômico e sustentável do país.

Enquanto nós, lideranças de movimentos sociais não percebemos que o lado negro da força é apenas uma questão de ponto de vista, e que discursos como “é culpa da imprensa e das elites“ já estão para lá de cansados, teremos que assistir pastores representantes de um Deus que queima demônios para plateias lotadas, militares detentores de um discurso cuja síntese é “bala em vagabundo” e donos de representantes de grandes conglomerados econômicos, votando e aprovando leis que versarão sobre o futuro do Brasil e claro o nosso.

Com isso reafirmarão seus compromissos de campanha e logo serão reeleitos trazendo ainda mais pessoas alinhadas com suas “propostas de mundo” e de relações sociais.

Este é um manifesto contra o MIMIMI e a choradeira recheado de esperanças, pois acredito que diante da analogia que nos apresenta um cenário com a água subindo e batendo muito acima da cintura, possamos decidir voltar a nadar.

Uma La minuta para Eliane Brum

De início achei que não poderia ser assim. Deveria como um prato especial, ser elaborada com um olhar de lupa para cada detalhe, e assim eu, como um cozinheiro consciente do tamanho de minhas responsabilidades, trataria tal preparo com uma liturgia digna de tudo aquilo que se é pensado e feito para existir como tributo a um acontecimento grande ou um momento único. Diferente disto, conto-lhes que esta coluna chega até vocês sem qualquer disciplina ou grandes elaborações. Ainda fazendo analogia com o ato de cozinhar, creio que lhes entrego um delicioso, porém simples prato de La minuta, comidinha gostosa que sempre peço quando vou a Porto Alegre, e que acaba sendo ao fim das contas algo como nosso tradicional Bife a cavalo. Creio que a mudança de rota, se deu graças a minha ansiedade unida ao turbilhão de reflexões e vontades que como uma equipe de futebol limitada pela técnica, porém rica em raça, acabaram vencendo minhas intenções mais formalistas e burocráticas, me trazendo como que por um tsunami para frente deste computador logo após o fim do livro, pedindo para que teclasse de imediato, palavras, frases e argumentos que pudessem compartilhar com alguma precisão a experiência única de ler “A menina quebrada“ de Eliane Brum.

Termino a leitura com a sensação, de ter compartilhado por dias uma cuia de chimarrão, com a simpática gaúcha de Ijuí. Engraçado, porém longe de inédito, ter essa sensação sobre a personalidade de alguém que como tantas outras pessoas presentes em meu dia a dia, nunca vi o rosto, mas neste caso também nunca ouvi a voz, aliás, creio que assim que terminar esse texto vou para o youtube para conhecer o jeito de falar de minha nova amiga de palavras.

O livro que me refiro, é uma rica coletânea de colunas publicadas pela autora ao longo de alguns anos, no blog da Revista Época. Esta característica me permitiu experimentar um novo jeito de ler, pois vez ou outra impactado diante da qualidade da escrita e da beleza das ideias, eu podia correr para a internet, dar um Google no título da coluna, chegar até o texto e como em um passe de mágica compartilhar aquele tesouro recém-descoberto com toda minha rede de “amigos “tecida pela vida e pelo Facebook.

Não me lembro se compartilhei por lá, mas vale a pena ler e se emocionar com as histórias cruzadas e apartadas de Pedro e João, personagens reais de uma tragédia social, que oprime e exclui pessoas com orientações sexuais diferentes do padrão hetero: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/01/pedro-e-joao-historia-de-dois-meninos-gays-e-uma-infancia-devastada.html

O livro traz com beleza e verdade as possibilidades e consequências de se envelhecer. Não se trata neste caso de uma verdade pregada como única, mas sim, de uma verdade compartilhada por alguém que reflete sobre a possibilidade de ser velha, com base nos exemplos de outros, e no jeito de viver de si própria. Eliane clama pelo direito de ser chamada de velha, e concordando ou não com ela, o texto nos permite refletir o quanto podemos ser mais críticos e criteriosos, diante da liberdade que nos é dada frente ao mar de possibilidades que é a nossa língua portuguesa: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/02/me-chamem-de-velha.html

Mais do que bons textos, “A menina quebrada” nos conecta o tempo todo a outros livros, filmes, e produções artísticas, graças ao ímpeto característico da autora em compartilhar tudo aquilo que reconhece como bom.

Acredito que em alguma medida, essa coluna, configura-se em uma devolutiva ou quem sabe até a materialização de um aprendizado de minha parte para com o exemplo proposto e praticado por ela ao longo de páginas e mais páginas, onde compartilhar bons conteúdos parece ser quase que uma profissão de fé, somada ao carinho com que Eliane nos brinda com seus textos.

Para finalizar, compartilho com vocês um texto que acabou contribuindo para que eu pudesse olhar diferente para uma foto que eu nunca vi. Pois é, deixa-me explicar melhor. Mesmo sendo cego, sempre me causou desconforto como militante que se percebe de esquerda, independente de questões partidárias, uma foto em que o ex-presidente Lula ao cumprimentar Paulo Maluf, selava um compromisso entre os dois partidos em torno da busca pela eleição do atual prefeito da cidade de São Paulo, Fernando Haddad. O texto fala por si, então me despeço deixando o link, http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/06/quem-esta-com-lula-e-maluf-na-foto-alem-de-haddad.html e meus agradecimentos a Eliane Brum, que espero daqui a algum tempo reencontrar por meio de uma de suas muitas obras, ou quem sabe até conhecer e trocar ideias pessoalmente em algum canto desse Brasil, que como ela mais ou menos definiu: “Seja de Belém ou da periferia de São Paulo, nunca voltamos como lá chegamos”.