Um prêmio inusitado

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coco

Faz uns vinte anos, mas parece que foi ontem. Eu trabalhava com vendas por telefone, e dado o então grande crescimento dessa atividade, pude vivenciar diferentes experiências. Vendi cartões de crédito, planos de saúde, revistas, jornais, equipamentos de telecomunicações, dentre outras coisas com maior ou menor grau de complexidade.

A empolgação dos trabalhadores da época era algo contagiante, e em um português vulgar que tomava conta dos bate-papos de corredor, o que mais se dizia era que vendedor dos bons vendia até m*#$%@!, e/ou terreno na Lua. Claro, tratavam-se de figuras de linguagem que buscavam ao máximo trazer o impossível como algo a ser suplantado.

Ontem passeando com a família no shopping, fomos a um aniversário de uma coleguinha de minha filha em um daqueles espaços com vários jogos e brinquedos, onde as crianças em posse de um cartão previamente carregado podem ter acesso a boa parte das atrações. Digo maioria, pois outras tantas depende de uma espécie de créditos que se pode ganhar ou comprar para interagir com games que dão ainda mais créditos ou prêmios em espécie. O espaço apresenta-se como uma alternativa fantástica para as crianças, pois ali elas interagem, brincam, e celebram mais um ano fazendo aquilo que mais gostam, ou seja, brincar, brincar e brincar.

Em meio a idas e mais idas a uma série de brinquedos, me chamou a atenção ouvir repetidas vezes de crianças diferentes “papai, mamãe, eu quero um cocô”. Talvez por ser cego, diálogos e falas soltas ao redor acabam me chamando mais a atenção, e a surpresa foi aumentando, visto que não pediam como de costume para fazer, mas afirmavam com veemência que queriam o tal produto.

Tive a certeza que não estava ouvindo mal, quando minha filha disse o mesmo, e logo em seguida pude comprovar com as próprias mãos. A amiga da mesma idade havia acabado de ganhar em um dos tantos jogos que haviam por lá um cocô de pelúcia, que minha esposa e os demais pais ao redor me permitiram finalmente tocar, e fazer como São Tomé: “ver para crer”.

É isso mesmo, alguém do mercado de games, atividades lúdicas ou sei lá como mais poderíamos tipificar esse setor econômico, pensou fora da caixa e conseguiu transformar o cocô em um prêmio cobiçado e aclamado por crianças.

Voltando para casa fui consolando minha pequena, explicando que se tratava de um prêmio e teríamos que jogar em algum outro momento para ver se ganhávamos tal objeto de cobiça. Aproveitei a oportunidade para tentar dialogar com ela sobre tal situação inusitada, ao menos para mim que cresci percebendo o prêmio desejado como algo que só poderia encontrar lugar em esgotos, foças e afins. Perguntei, “você acha legal ganhar um cocô, dormir abraçada com ele”? Minhas perguntas foram fazendo rapidamente ela mudar de ideia, mudando de assunto e deixando para trás o pedido por aquele brinquedo novo.

Trouxe essa experiência pessoal para nossa conversa semanal, pois acho importante de tempos em tempos, refletirmos sobre a falta de limites do mercado, quando o tema é aumentar e estimular o consumo. Crianças e jovens estão entre as vítimas prediletas dessas ofensivas e por vezes nós pais e familiares, por amor ou por ímpeto em atender nossos amados (as), acabamos entrando na onda e comprando sem perceber o tamanho da armadilha. Alguém, pode ler este texto e afirmar que estou errado. Talvez minha história refira-se a uma estratégia moderna que tenta ressignificar o papel do cocô para crianças e a sociedade em geral.

Pessoalmente ainda acho que se trata de uma afronta de um mercado agressivo, totalmente descompromissado com elementos educacionais e culturais importantes para contribuir com aqueles que no futuro assumirão a condução do planeta.

Como diria Pepe Mujica, quando compramos não gastamos dinheiro, mas sim tempo. Desta forma, espero que nossos filhos, primos, sobrinhos, enfim, nossas meninas e meninos, possam investir seus dias de infância com brinquedos e brincadeiras mais bacanas que um “cocô”

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