Retrospectiva: tem pra todos os gostos…

A cada ano fica mais complexo e ao mesmo tempo um tanto banal, o volume e a qualidade de retrospectivas que somos submetidos pelos diferentes e diversos veículos de mídia dos quais consumimos conteúdos. Existem aquelas customizadas, elaboradas especialmente por exemplo para quem gosta de esportes. Também, todo fim de ano pinta aquela genérica, recheada de desgraças, comemorações e dados diversos, empacotada de um jeito que dá a impressão que todo ano acaba ao fim das contas sendo igual em forma e conteúdo.

A verdade, no entanto, é que a vida é única, diversa e cheia de surpresas, cabendo a cada dia, de algum jeito, a grande responsabilidade de pavimentar a narrativa da história da humanidade. Olhando por essa perspectiva, as pequenas coisas ganham grandeza, intensidade, e nos chamam a atenção para que olhemos para os fatos que vivemos com maior estranhamento, cuidado, e compromisso de quem é testemunha de algo único; fundamental para que tantas outras situações possam ocorrer. Assim, neste artigo de fim de ano, lhes convido a experimentar a elaboração de sua própria retrospectiva.

Quais as amenidades de 2015 que lhe fizeram respirar? Falo daquele bate-papo, ou aquela situação aparentemente pouco importante, porém fundamental para recarregar as baterias com boas risadas, ou mesmo com um bom relaxamento da sempre pressionada massa encefálica. Foram os momentos em que vivemos, simplesmente por viver. Pessoalmente lembro de um karaokê entre amigos, dos muitos almoços e pizzas em família, ou mesmo das horas dedicadas a produção de uma boa cerveja a ser posteriormente compartilhada. Lembro do sabor dos deliciosos peixes e sorvetes na estação das docas em Belém do Pará, do canto das cigarras e conversas ao fim do dia entre amigos em Brasília, das músicas tradicionais cantadas com alegria e muito chimarrão e/ou vinho e em Porto Alegre.

Quais as inovações de 2015 que te fizeram parar e refletir. Falo das coisas que te arrancaram do lugar comum e lhes deram a sensação de viver um tempo novo. Pessoalmente me encantei com o Uber, e fiquei um pouco chocado de ver o quanto o conceito de taxi ficou ultrapassado. Me impressionei, diante das descobertas de minha filha de cinco anos no youtube, e pude constatar minha condição de testemunha viva de um novo jeito de consumir conteúdos pela televisão.

Quais os livros, filmes e séries deste ano que você guarda na bagagem para levar para a vida. A gente acaba vendo, ouvindo e deixando para trás muita coisa bacana, ou claro também muita porcaria. Em 2015, pude conhecer e me encantar com a escrita e a narrativa de Leonardo Padura, mergulhando em seu fantástico livro Os homens que amavam os cachorros, e travar boquiaberto diante das reviravoltas de Game Of Trones. Tive um belo reencontro com a filosofia, graças ao qualificado diálogo entre os Prof. Cloves de Barros Filho e Julio Pompeu no livro Somos Todos Canalhas, e me deliciei diante dos ótimos textos e provocações de Eliane Brun com o livro A menina quebrada.

E quanto as grandes experiências profissionais, o que fica como boas lembranças e aprendizado de 2015. Nosso trabalho pode ser fontes de infindáveis retrospectivas. A cada ano, revisitar o que fizemos e/ou deixamos de fazer, em boa parte das vezes configura-se em medida quase cirúrgica para avançarmos com qualidade. Compartilho com vocês, as excelentes experiências que pude vivenciar em cidades como Caxias do Sul, Sorocaba, Itapetininga, Maceió, Natal, Campo Grande dentre tantas outras, que me acolheram com carinho, respeito e muita empatia, para discutirmos questões relacionadas a Política Pública de Assistência Social e a Pessoa com deficiência. Sou um profissional que tenho construído uma carreira comprometida com a militância, e com todo o aprendizado que pude obter e compartilhar na universidade. Por isso, afirmo sem medo de errar, que em cada formação que ministro, ensino e aprendo com a mesma intensidade, e melhor ainda trago de volta para casa muitos amigos e histórias para lembrar e revisitar.

As nossas retrospectivas podem ter muitos outros capítulos, mas não tenho dúvidas de que só serão autênticas se de fato tiverem a nossa assinatura.

Pretendo continuar por aqui, escrevendo muitos outros capítulos de meu 2015. Por hora me despeço agradecendo pelo companheirismo de tantos colegas de trabalho e de luta. Pela amizade e carinho de meus familiares, velhos e novos amigos, e tantas pessoas que acompanham meus trabalhos online e offline. Obrigado meus velhos e novos alunos, a cada encontro em sala de aula, nos tornamos juntos mais fortes e acima de tudo, cidadãos brasileiros. E que venha 2016.

 

O que tem ali?

SCFV

Em meio a correria do cotidiano, o retorno para casa e o bate-papo sem pressa de Paula e Cristina, tornavam leve os mais de trinta minutos de caminhada entre a grande fábrica de peças automotivas onde as duas trabalhavam e o bairro tido por muitos como distante, porém para as amigas o mais perto possível daquilo que muitos chamam de aconchego do lar. Após tomar uma água de coco na barraca do Zeca, as duas ganharam fôlego e seguiram a passos largos continuando a conversa iniciada ainda no trabalho sobre o futuro dos filhos, vez ou outra sendo interrompida por cenas e promoções que saltavam aos olhos mesmo que não quisessem. Paula contava que a filha Ana pudesse seguir carreira na saúde, pois ela própria sempre sonhou com o mundo da enfermagem. Cristina queria ver o filho estudando, não importava o que fosse, ela repetia sempre que esse seria o único caminho para que o moleque pudesse ter uma vida melhor e mais tranquila do que a dela e do marido. Depois de cruzar o calçadão repleto de lojas com atrativos, que a todo tempo se transformavam em pequenas paradas das amigas para especular os preços. Paula e Cristina viraram à direita, e seguiram rumo a Av. Loas. Tratava-se de uma grande via, com uma subida difícil de vencer, mas que valia a pena ser percorrida, pois levava até a praça da cidadania, um espaço arejado, repleto de árvores, pássaros e pessoas que reconheciam naquele lugar o melhor ponto de encontro da comunidade.

Na altura do número 1993, Cristina mostrou para a amiga um prédio laranja com várias crianças, jovens e familiares chegando e saindo. “Olha lá, o Scolari vem sempre aí”. Por mais que fosse comum, Paula sempre ficava incomodada quando ouvia o nome do afilhado, preferia chamar o guri pelo apelido de Larinho, para evitar ainda mais bulling e constrangimentos. A mãe e o pai apaixonados por futebol, decidiram homenagear o técnico da seleção brasileira campeã de 2002 ano que o garoto nasceu. Como Luis Felipe ficaria muito óbvio segundo Paula, o maridão Augusto decidiu inovar, foi então que optaram por Scolari, mas aproveitaram para também reverenciar o Fenômeno: Scolari Ronaldo de Souza – uma pena não terem previsto os 7 a 1, doze anos depois.

“O  que que tem ali Cristina?”

“O nome é serviço de convivência e fortalecimento de vínculos! Nossa, demorei para guardar isso menina, e foi o povo lá do CRAS que recomendou no dia que fui lá para conversar sobre o Larinho”. Cristina continuou: “Depois que ele começou a vir aí, eu também já fiz essa pergunta algumas vezes e cada vez, é uma resposta”. Paula surpresa questionou, “eita, como assim?”

Cristina respondeu: “pois é, quando perguntei pela primeira vez, ele disse que era respeito, pois estavam fazendo uma conversa sobre os nomes de cada menina e menino”.Nossa, como assim? perguntou Paula. “Pois é, conversaram entre eles, saíram para assuntar nos comércios da região, foram até na igreja e no centro do Pai Lorival”. O Scolari disse que mesmo reconhecendo que era diferente todo mundo passou a respeitar o nome dele.”

– “Uai Cristina, ainda não entendi, o que realmente ele vai fazer lá, fica só falando de nome? ” “Imagina, diz ele que lá também tem desenvolvimento da autonomia. Você acredita, que eles vão conversar com os vereadores, já foram na associação comercial, e estão fazendo com nós das famílias, umas conversas bacanas sobre nossos direitos…  Os meninos estão ensinando a gente comadre! ”

Cristina de repente parou de caminhar, olhou reflexiva para o prédio laranja que a essas alturas já havia ficado um pouco para trás e falou um pouco mais baixo, “acho que agora eu já sei o que é que tem ali!

– Então me diga mulher! disse Paula sorridente, já imaginando procurar o CRAS para ver se Ana também poderia começar a frequentar o tal serviço de…….., e já não lembrava mais o nome completo.

“Ali tem vida comadre! Os meninos aprendem jogar bola lá na quadra do clube do bairro, tão começando a tocar um instrumento com a banda da igreja, estudam muito na escola, e chegando ali, vivem e aprendem a viver. O bom é que fazem isso tudo com as famílias e a comunidade”.

Paula ficou em silêncio por alguns minutos e quando estavam chegando na praça decidiram sentar para tomar um ar. A mãe da Ana retomou a conversa meio afirmando meio perguntando, –  “caramba comadre, que coisa boa se tivesse esse tal serviço no nosso tempo “. – “É verdade minha amiga, acho que muitos amigos não seriam perdidos por besteira, uns preconceitos sem sentido, brincadeiras maldosas, umas ideias velhas que a turma só ficava repetindo, sem contar os lugares e as pessoas que a gente poderia ter visto com o olhar de criança, sem precisar crescer para chegar até lá. O Scolari, uma vez disse para o pai que descobriu lá no serviço, que a cidade é feita para todos, e que não tem lugar para rico, lugar de pobre. Lá no serviço, tem meninos de toda a condição social, vai até criança com deficiência, é impressionante. Eles foram até no teatro, e agora tão até querendo fazer uma peça”.

Paula levantou, e convocou a amiga: –  “Então vamos seguir para casa.  Quero ainda hoje ir lá no CRAS para matricular a Aninha nesse lugar. Minha menina merece viver e conviver mais e melhor.”