Culto ao vencedor.

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Em análise que tratava do comportamento dos debatedores candidatos a prefeitura de São Paulo no último dia vinte e nove de setembro, o site da Folha de São Paulo retratou com palavras um dos momentos mais constrangedores da peleja. “ Líder da disputa, o tucano João Doria pôs de lado o jeito de bom moço e tratou com grosseria a ex-prefeita Luiza Erundina –logo ela, a mais frágil entre os seus oponentes.

Ao responder a uma pergunta sobre seus negócios, Dória disse que tinha uma trajetória “moderna, atual e transformadora”, em contraste com a rival octogenária”.

Três dias depois as urnas mostraram que a grande maioria da população não tinha dúvidas, queria um vencedor para chamar de seu. Alguém que não se preocupasse com vidas no transito, ou essa conversa toda de problemas complexos de mobilidade urbana, inclusão social e acesso a serviços públicos. Bastava apenas ser. uma espécie de gladiador contra o mau, neste caso “o mau chamado PT”, ou melhor um mau maior apontado pelo próprio candidato chamado política.

A vitória de Dória atendeu vários anseios reprimidos a meses. De cara deu aos haters das redes sociais, o troféu a tanto tempo esperado. Agora eles poderiam como seu líder eleito se auto proclamar vencedores, derrotando intelectuais, argumentos bem construídos ou qualquer outra coisa que viesse recheada de pensamentos mais elaborados. Deu para sair na janela, bater com ódio na panela e gritar “chupa esquerda, a que é trabalho”, estando empregado ou não.

Os pobres na periferia bombardeados por seus patrões com argumentos políticos que escrachavam suas escolhas em eleições a anos, agora apesar do desemprego, e os péssimos serviços ofertados, inclusive por aqueles que lhe apresentaram o super administrador, agora também poderiam exercer sua vingança particular. Com a vitória

do vencedor, não celebrariam entre seus iguais, mas sim com os manifestantes bem vestidos e ricos que lotaram a Paulista meses antes fazendo como disseram na televisão, “a maior festa da democracia brasileira de todos os tempos”.

Quem votou no vencedor, não optou por um projeto político, até porque o vencedor não gosta de política. Não pensou na coisa pública, já que seu olhar é sempre para o privado. Ele administrará a cidade como empresa, mas ainda não se sabe que tipo de empresa. Aliás caberia uma pesquisa para saber, qual o nível de conhecimento daqueles que elegeram o vencedor em relação aos tantos negócios que o tornaram milionário?

Certa vez Abraham Linco disse, “O campo da derrota não está povoado de fracassos, mas de homens que tombaram antes de vencer“. O prefeito eleito de São Paulo não precisou tombar, venceu logo na primeira eleição, pois seus eleitores estavam também ávidos por alguma espécie de vitória, fosse ela qual fosse. Resta agora saber, além do PT, da política, e de seus demais adversários diretos quais serão os próximos derrotados por super João Trabalhador?

O que tem ali?

SCFV

Em meio a correria do cotidiano, o retorno para casa e o bate-papo sem pressa de Paula e Cristina, tornavam leve os mais de trinta minutos de caminhada entre a grande fábrica de peças automotivas onde as duas trabalhavam e o bairro tido por muitos como distante, porém para as amigas o mais perto possível daquilo que muitos chamam de aconchego do lar. Após tomar uma água de coco na barraca do Zeca, as duas ganharam fôlego e seguiram a passos largos continuando a conversa iniciada ainda no trabalho sobre o futuro dos filhos, vez ou outra sendo interrompida por cenas e promoções que saltavam aos olhos mesmo que não quisessem. Paula contava que a filha Ana pudesse seguir carreira na saúde, pois ela própria sempre sonhou com o mundo da enfermagem. Cristina queria ver o filho estudando, não importava o que fosse, ela repetia sempre que esse seria o único caminho para que o moleque pudesse ter uma vida melhor e mais tranquila do que a dela e do marido. Depois de cruzar o calçadão repleto de lojas com atrativos, que a todo tempo se transformavam em pequenas paradas das amigas para especular os preços. Paula e Cristina viraram à direita, e seguiram rumo a Av. Loas. Tratava-se de uma grande via, com uma subida difícil de vencer, mas que valia a pena ser percorrida, pois levava até a praça da cidadania, um espaço arejado, repleto de árvores, pássaros e pessoas que reconheciam naquele lugar o melhor ponto de encontro da comunidade.

Na altura do número 1993, Cristina mostrou para a amiga um prédio laranja com várias crianças, jovens e familiares chegando e saindo. “Olha lá, o Scolari vem sempre aí”. Por mais que fosse comum, Paula sempre ficava incomodada quando ouvia o nome do afilhado, preferia chamar o guri pelo apelido de Larinho, para evitar ainda mais bulling e constrangimentos. A mãe e o pai apaixonados por futebol, decidiram homenagear o técnico da seleção brasileira campeã de 2002 ano que o garoto nasceu. Como Luis Felipe ficaria muito óbvio segundo Paula, o maridão Augusto decidiu inovar, foi então que optaram por Scolari, mas aproveitaram para também reverenciar o Fenômeno: Scolari Ronaldo de Souza – uma pena não terem previsto os 7 a 1, doze anos depois.

“O  que que tem ali Cristina?”

“O nome é serviço de convivência e fortalecimento de vínculos! Nossa, demorei para guardar isso menina, e foi o povo lá do CRAS que recomendou no dia que fui lá para conversar sobre o Larinho”. Cristina continuou: “Depois que ele começou a vir aí, eu também já fiz essa pergunta algumas vezes e cada vez, é uma resposta”. Paula surpresa questionou, “eita, como assim?”

Cristina respondeu: “pois é, quando perguntei pela primeira vez, ele disse que era respeito, pois estavam fazendo uma conversa sobre os nomes de cada menina e menino”.Nossa, como assim? perguntou Paula. “Pois é, conversaram entre eles, saíram para assuntar nos comércios da região, foram até na igreja e no centro do Pai Lorival”. O Scolari disse que mesmo reconhecendo que era diferente todo mundo passou a respeitar o nome dele.”

– “Uai Cristina, ainda não entendi, o que realmente ele vai fazer lá, fica só falando de nome? ” “Imagina, diz ele que lá também tem desenvolvimento da autonomia. Você acredita, que eles vão conversar com os vereadores, já foram na associação comercial, e estão fazendo com nós das famílias, umas conversas bacanas sobre nossos direitos…  Os meninos estão ensinando a gente comadre! ”

Cristina de repente parou de caminhar, olhou reflexiva para o prédio laranja que a essas alturas já havia ficado um pouco para trás e falou um pouco mais baixo, “acho que agora eu já sei o que é que tem ali!

– Então me diga mulher! disse Paula sorridente, já imaginando procurar o CRAS para ver se Ana também poderia começar a frequentar o tal serviço de…….., e já não lembrava mais o nome completo.

“Ali tem vida comadre! Os meninos aprendem jogar bola lá na quadra do clube do bairro, tão começando a tocar um instrumento com a banda da igreja, estudam muito na escola, e chegando ali, vivem e aprendem a viver. O bom é que fazem isso tudo com as famílias e a comunidade”.

Paula ficou em silêncio por alguns minutos e quando estavam chegando na praça decidiram sentar para tomar um ar. A mãe da Ana retomou a conversa meio afirmando meio perguntando, –  “caramba comadre, que coisa boa se tivesse esse tal serviço no nosso tempo “. – “É verdade minha amiga, acho que muitos amigos não seriam perdidos por besteira, uns preconceitos sem sentido, brincadeiras maldosas, umas ideias velhas que a turma só ficava repetindo, sem contar os lugares e as pessoas que a gente poderia ter visto com o olhar de criança, sem precisar crescer para chegar até lá. O Scolari, uma vez disse para o pai que descobriu lá no serviço, que a cidade é feita para todos, e que não tem lugar para rico, lugar de pobre. Lá no serviço, tem meninos de toda a condição social, vai até criança com deficiência, é impressionante. Eles foram até no teatro, e agora tão até querendo fazer uma peça”.

Paula levantou, e convocou a amiga: –  “Então vamos seguir para casa.  Quero ainda hoje ir lá no CRAS para matricular a Aninha nesse lugar. Minha menina merece viver e conviver mais e melhor.”

O dia mais amargo do Brasil

memeipaday

E aí, esse título lhe faz sentir vontade de fazer parte desta data? Provavelmente não, exceto se, assim como eu e outras milhares de pessoas você for fã das lupoladas Índia Pale Ale, estilo de cerveja cheio de aromas e sabores, marcados pela adição de diferentes lúpulos nos diversos momentos que compõem o processo de produção da bebida.

No último dia 22 de agosto, estivemos em Ribeirão Preto celebrando o IPA DAY, comemoração com origem americana, mas que rapidamente graças a uns caras empreendedores, de uma empresa chamada Academia de Ideias Cervejeiras, chegou no Brasil com muita força, se configurando como o maior evento do estilo no mundo. Estávamos lá, em quase 3 mil pessoas, e infelizmente o amargo que de acordo com o esperado deveria ser o protagonista em cada copo dos festeiros, passou a dominar   o humor e o clima da festa. O dia ficou amargo por conta das longas filas para entrar, mais filas para beber, e claro filas de toda ordem para comer.

Assim, os excelentes músicos que com muita qualidade de som tentavam animar todos que chegavam, passaram a cada intervalo de músicas a ter que conviver com vaias crescentes, típicas de um cenário hostil e perfeito para se formar grandes confusões. Felizmente tudo terminou bem, e da metade do evento para frente, os organizadores conseguiram com algumas medidas paliativas, e a prorrogação do evento em mais duas horas, acalmar os ânimos reconstituindo em boa medida o clima de congraçamento tão presentes em anos anteriores.

Conto-lhes esta experiência, pois a mim o que de fato realmente chamou a atenção, foi uma postura raivosa e porque não dizer impiedosa de uma galera que até então era extremamente alinhada e porque não dizer “fã dos organizadores daquele evento que tem marcado o crescimento da cultura cervejeira no país.

A fúria tomou as redes sociais, e mesmo os esforços de gestão da crise, que se deram ao longo do dia não foram para a enorme maioria, suficientes para amenizar toda a ira online e offline.

Ficou claro que mais do que consumidores insatisfeitos, haviam ali haters habituais, que identificaram naquele problema mais uma oportunidade de explodir, maldizendo uma festa que até poucas horas antes era mais esperada do ano.

Com essa constatação não quero culpabilizar as vítimas, até porque faço parte delas. Paguei e peguei filas como poucas vezes já havia feito, contudo não creio que seja inteligente fazer uma análise odiosa de qualquer que seja a situação, sem também ponderar os acertos e as possibilidades de ajustes de rota para um próximo momento.

Pessoalmente destaco a qualidade do espaço, dos músicos presentes, das cervejas participantes, e da logística criada para distribuição de água gelada. Notem que mais do que tratar de uma festa que teve problemas, quero discutir e provocá-los a pensar que necessitamos de análises e opiniões mais complexas. Seja na arte, na gastronomia, na política, ou mesmo em nosso cotidiano particular, sempre irão existir bem mais coisas do que os óbvios dois lados da moeda.

 

Colapsocracia – O embate entre “vilões” e “mocinhos” na terra onde sempre a culpa é do outro…

brasil nova ordem mundial

Redução da maioridade penal, reforma política, ajuste fiscal, perda de direitos trabalhistas. O Brasil assiste de arquibancada, um duelo entre os poderes constituídos da República, onde a única certeza é que a coerência, o respeito às instituições, e o futuro do país, se mostram como questões secundárias para uma maioria esmagadora de agentes públicos que nitidamente elegeram como prioridade de atuação, vencer uma guerra cujo motivo, parece que boa parte deles nem lembra mais qual é.

Procurei batizar este texto com um termo que pudesse em boa medida traduzir como percebo o momento político em que vivemos. Sem respostas diante de inúmeras tentativas, me arrisco a inventar algo, e desde já deixo os haters à vontade para despejar suas verdades e fúrias incontidas, pois como alguém resignadamente um dia afirmou, “faz parte”. Com a expressão “colapsocracia”, pretendo conversar com vocês não sobre as consequências, mas sobre algumas das possíveis causas, de enormes retrocessos que temos testemunhado atônitos quando o assunto é defesa e garantia de direitos.

Assim, trago um termo que objetiva designar, a crise, a paralisia, e a total desorganização institucional, como sendo os ordenadores e detentores do atual poder vigente no país. Na contramão dos discursos de     muitos companheiros de luta e caminhada, me recuso a atribuir a um segmento específico ou a determinadas pessoas tamanha responsabilidade, até porque os apontados da vez, em minha opinião, não têm conteúdo e consistência para tanto.

Vejo por exemplo, Eduardo Cunha, atuando com enorme coerência, se considerarmos a postura e os compromissos firmados por ele, diante daqueles que o levaram a chegar onde está. Os eleitores do Presidente da Câmara e de outras centenas de parlamentares que se alinham com ele, são a prova viva de que nós, movimentos sociais, falhamos diante do desafio em avançar para além da promoção de acesso a renda e a determinados serviços públicos, pois valores que verdadeiramente poderiam transformar o país, talvez tenham sido apenas proclamados em artigos científicos, discursos rebuscados, ou mesmo em conversas e debates feitos de nós para nós mesmos.

Enquanto milhões de pessoas se sentem representadas e defendidas por seus parlamentares de discursos alimentados pela intolerância, pelo senso de vingança e por tantos outros princípios ultra-conservadores, outros tantos milhões se sentem traídos, pois seus eleitos fazem da prática política a negação  tácita de compromissos e discursos históricos recorrentemente firmados.

É preciso compreender que as disputas que acompanhamos em Brasília na verdade partem de nosso cotidiano. Se não conseguimos falar de verdade e principalmente com verdade, para ressignificar ideias que percebemos como equivocadas, verbalizadas por aqueles  que convivemos e até amamos, não é justo simplesmente apontar para um ou mais culpados, tirando dos ombros o peso da responsabilidade que sim, também  é nossa. Mudar o avatar no facebook é muito pouco para se superar a intolerância histórica contra grupos com orientações sexuais distintas. Se posicionar contra a redução da maioridade penal é importante, mas muito pouco, diante de um problema de segurança pública crônica que até hoje não mereceu atenção de qualquer dos eleitos desde a redemocratização do país. Fazer defesa intransigente de direitos trabalhistas conquistados é bacana, porém falta dizermos com maior clareza quais as propostas concretas que defendemos para a retomada do crescimento econômico e sustentável do país.

Enquanto nós, lideranças de movimentos sociais não percebemos que o lado negro da força é apenas uma questão de ponto de vista, e que discursos como “é culpa da imprensa e das elites“ já estão para lá de cansados, teremos que assistir pastores representantes de um Deus que queima demônios para plateias lotadas, militares detentores de um discurso cuja síntese é “bala em vagabundo” e donos de representantes de grandes conglomerados econômicos, votando e aprovando leis que versarão sobre o futuro do Brasil e claro o nosso.

Com isso reafirmarão seus compromissos de campanha e logo serão reeleitos trazendo ainda mais pessoas alinhadas com suas “propostas de mundo” e de relações sociais.

Este é um manifesto contra o MIMIMI e a choradeira recheado de esperanças, pois acredito que diante da analogia que nos apresenta um cenário com a água subindo e batendo muito acima da cintura, possamos decidir voltar a nadar.

Uma La minuta para Eliane Brum

De início achei que não poderia ser assim. Deveria como um prato especial, ser elaborada com um olhar de lupa para cada detalhe, e assim eu, como um cozinheiro consciente do tamanho de minhas responsabilidades, trataria tal preparo com uma liturgia digna de tudo aquilo que se é pensado e feito para existir como tributo a um acontecimento grande ou um momento único. Diferente disto, conto-lhes que esta coluna chega até vocês sem qualquer disciplina ou grandes elaborações. Ainda fazendo analogia com o ato de cozinhar, creio que lhes entrego um delicioso, porém simples prato de La minuta, comidinha gostosa que sempre peço quando vou a Porto Alegre, e que acaba sendo ao fim das contas algo como nosso tradicional Bife a cavalo. Creio que a mudança de rota, se deu graças a minha ansiedade unida ao turbilhão de reflexões e vontades que como uma equipe de futebol limitada pela técnica, porém rica em raça, acabaram vencendo minhas intenções mais formalistas e burocráticas, me trazendo como que por um tsunami para frente deste computador logo após o fim do livro, pedindo para que teclasse de imediato, palavras, frases e argumentos que pudessem compartilhar com alguma precisão a experiência única de ler “A menina quebrada“ de Eliane Brum.

Termino a leitura com a sensação, de ter compartilhado por dias uma cuia de chimarrão, com a simpática gaúcha de Ijuí. Engraçado, porém longe de inédito, ter essa sensação sobre a personalidade de alguém que como tantas outras pessoas presentes em meu dia a dia, nunca vi o rosto, mas neste caso também nunca ouvi a voz, aliás, creio que assim que terminar esse texto vou para o youtube para conhecer o jeito de falar de minha nova amiga de palavras.

O livro que me refiro, é uma rica coletânea de colunas publicadas pela autora ao longo de alguns anos, no blog da Revista Época. Esta característica me permitiu experimentar um novo jeito de ler, pois vez ou outra impactado diante da qualidade da escrita e da beleza das ideias, eu podia correr para a internet, dar um Google no título da coluna, chegar até o texto e como em um passe de mágica compartilhar aquele tesouro recém-descoberto com toda minha rede de “amigos “tecida pela vida e pelo Facebook.

Não me lembro se compartilhei por lá, mas vale a pena ler e se emocionar com as histórias cruzadas e apartadas de Pedro e João, personagens reais de uma tragédia social, que oprime e exclui pessoas com orientações sexuais diferentes do padrão hetero: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/01/pedro-e-joao-historia-de-dois-meninos-gays-e-uma-infancia-devastada.html

O livro traz com beleza e verdade as possibilidades e consequências de se envelhecer. Não se trata neste caso de uma verdade pregada como única, mas sim, de uma verdade compartilhada por alguém que reflete sobre a possibilidade de ser velha, com base nos exemplos de outros, e no jeito de viver de si própria. Eliane clama pelo direito de ser chamada de velha, e concordando ou não com ela, o texto nos permite refletir o quanto podemos ser mais críticos e criteriosos, diante da liberdade que nos é dada frente ao mar de possibilidades que é a nossa língua portuguesa: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/02/me-chamem-de-velha.html

Mais do que bons textos, “A menina quebrada” nos conecta o tempo todo a outros livros, filmes, e produções artísticas, graças ao ímpeto característico da autora em compartilhar tudo aquilo que reconhece como bom.

Acredito que em alguma medida, essa coluna, configura-se em uma devolutiva ou quem sabe até a materialização de um aprendizado de minha parte para com o exemplo proposto e praticado por ela ao longo de páginas e mais páginas, onde compartilhar bons conteúdos parece ser quase que uma profissão de fé, somada ao carinho com que Eliane nos brinda com seus textos.

Para finalizar, compartilho com vocês um texto que acabou contribuindo para que eu pudesse olhar diferente para uma foto que eu nunca vi. Pois é, deixa-me explicar melhor. Mesmo sendo cego, sempre me causou desconforto como militante que se percebe de esquerda, independente de questões partidárias, uma foto em que o ex-presidente Lula ao cumprimentar Paulo Maluf, selava um compromisso entre os dois partidos em torno da busca pela eleição do atual prefeito da cidade de São Paulo, Fernando Haddad. O texto fala por si, então me despeço deixando o link, http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/06/quem-esta-com-lula-e-maluf-na-foto-alem-de-haddad.html e meus agradecimentos a Eliane Brum, que espero daqui a algum tempo reencontrar por meio de uma de suas muitas obras, ou quem sabe até conhecer e trocar ideias pessoalmente em algum canto desse Brasil, que como ela mais ou menos definiu: “Seja de Belém ou da periferia de São Paulo, nunca voltamos como lá chegamos”.

Blumenau com atraso

Um título como esse só pode soar estranho, algo injusto, ou até uma piada. Na verdade, então o Atrasildo aqui sou eu, visto que só alguns dias depois de tudo que vivenciei, pude parar para compartilhar em palavras tantas emoções e fatos concretos.

Quem me segue nas redes sociais sabe que nos dias 20 e 21 de maio, tive o privilégio de trabalhar nas conferencias conjuntas de direitos humanos da cidade de Blumenau. Além da honra por proferir a fala magna, também me foi atribuída a responsabilidade de facilitar os trabalhos de um dos grupos, relacionados a um dos eixos propostos pelo CONADE – Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, para que fossem debatidos em todo o processo conferencial.

Quero lhes contar essa experiência a partir de três perspectivas. Começo falando com o olhar de militante. Sendo pessoa com deficiência, que tem há mais de quinze anos contribuído e pensado processos para estimular e qualificar a participação popular, vibrei com o privilégio de ser testemunha viva da primeira conferência daquele município na área dos direitos das pessoas com deficiência. De imediato trago para nossa conversa minhas percepções enquanto profissional. Foi lindo sentir todo o empenho e compromisso, dos delegados, gestores locais e equipe de apoio para que toda a programação, metodologia e produção de deliberações e moções fossem exitosas. Essa leitura inclusive transcende a conferência específica das pessoas com deficiência. Lá pude ver idosos, adolescentes, trabalhadores, PCDs, gestores, todos olhando para o todo, sem deixar que isso tirasse o foco no que haviam se comprometido a debater.

Por fim, posso afirmar que meu olhar de cidadão, mesmo que descolado de todo o histórico de militância e do acúmulo profissional na área de assessoria na gestão de políticas sociais e processos de participação popular, esteve plenamente contemplado pela forma leve e ao mesmo tempo profunda com que os delegados e delegadas naqueles dias discutiram demandas e problemas de sua cidade, do estado e do país.

Ao contrário do título dessa coluna, Blumenau não atrasa. A pontualidade de seu povo e eventos, em certa medida nos desconcerta em um primeiro momento, mas logo faz com que nos recordemos do real sentido das horas. Contudo, ainda que fortemente alinhados com os ponteiros do relógio, toda a população sabe que precisa acelerar botando em marcha toda sua disciplina, paixão e união, para avançar ainda mais na constituição de uma rede sólida de proteção social. As deliberações frutos destas conferencias conjuntas, mostram que o povo sabe o que quer, o que tem, e encara com bastante responsabilidade os desafios de muito por se fazer.

Meus agradecimentos aos usuários dos serviços, trabalhadores, gestores, equipe da práticas assessoria pela confiança, carinho, e por oportunizar fazer o que mais gosto, levar conhecimento, e trazer conhecimento, podendo assim exercitar com plenitude o que costumo chamar carinhosamente de plantação de amigos e cultivo da sabedoria.

Testemunhas da Uber

Logo da UBER acima de uma carro preto de luxo.

Logo da UBER acima de um carro preto de luxo.

Não demorou e logo chegou. Ao contrário de mim, que demorei alguns meses para aderir e testar o serviço, os confortáveis e eficientes carros da Uber chegaram com muita qualidade nas três vezes que pedi, durante esta semana em Brasília.

Não trago este assunto com o objetivo de fazer propaganda, nem tão pouco de emitir um julgamento definitivo da empresa e sua proposta. A ideia neste momento é provocá-los a pensar sobre um fenômeno histórico que parece ganhar contornos sem precedentes, tendo nós habitantes do século XXI, como testemunhas oculares, auditivas e sinestésicas desta revolução.

Se você não sabe e/ou nunca ouviu falar do que seja Uber, trago-lhes a empresa primeiramente com um texto de apresentação elaborado por eles próprios: Conforme o mundo gira, a Uber evolui. Ao conectar passageiros e motoristas diretamente através de nossos aplicativos, aumentamos a acessibilidade dentro das cidades, gerando novas possibilidades para os passageiros e novos negócios para os motoristas. Desde a nossa fundação em 2009 até nossos lançamentos atuais em centenas de cidades, a rápida expansão da presença global da Uber continua a aproximar as pessoas de suas cidades”. Ainda não ficou claro? Popularmente a empresa tem ficado conhecida como sendo a inimiga dos taxistas. Isto porque dentre outras coisas ela conecta pessoas que necessitam de transporte, à motoristas que queiram prestar este serviço.

A luta por defender um negócio diante de um novo paradigma é inglória. Lembram da quebradeira de empresas e pessoas que apostavam todos seus investimentos em locação, compra e venda de linhas telefônicas?

A ameaça de existir soluções de transporte com qualidade, que não demandem alvarás milionários, intermediários poderosos, e uma complexa cadeia de intermediários, assusta todo um segmento econômico, e tira o foco do que verdadeiramente está acontecendo.

Como eu disse parágrafos antes, fazer previsões ou julgamentos sobre o futuro da Uber não é tarefa simples e que caiba em pouco mais de três mil caracteres. Por outro lado podemos sim, conversar por aqui, sobre uma ideia inovadora que não pretende competir com o que já existe, por um motivo óbvio: de acordo com esta proposta, o que hoje temos, já não cabe mais.

Assim, para quem vê seu fértil mercado sucumbindo, do outro lado existe um inimigo a ser combatido e eliminado. Já para quem está chegando, o outro lado na verdade se traduz como outros tempos, logo não se traduz como ameaça no presente ou tão pouco de futuro.

É importante notar que a tecnologia tem contribuído muito para o surgimento de novidades como essas. Mas também é bom trazermos para a conversa, o fato concreto de que ao fim das contas o que provoca a morte ou nascimento de qualquer que seja o paradigma são as pessoas.

A tecnologia, por exemplo, já nos permitiria abastecer nossos veículos pessoais sem a intervenção de um terceiro. Mesmo há tempos sabendo disso, até aqui ainda não quisemos tal solução, e os frentistas continuam firmes e fortes povoando os postos de abastecimento de todo o país.

Acompanhar as transformações sociais, debatê-las e nos posicionarmos é fundamental para participarmos com qualidade e protagonismo dos próximos capítulos a serem escritos.

Caso você queira experimentar a Uber, é bom lembrar que por enquanto aqui no Brasil, apenas funciona em algumas cidades. Abaixo segue o link do site e um, código promocional que lhe dará R$ 20,00 de crédito para fazer um passeio e conhecer o serviço.

Boa experiência!

Serviço:

Site: www.uber.com

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O que lhe parece belo

A política passa, mas os amigos ficam!!!

A política passa, mas os amigos ficam!!!

Em meio a tanto ódio e descompromisso com a generosidade, tem sido difícil navegar pela Internet sem esbarrar em amigos de longa data rompendo vínculos e degladeando-se em nome de suas “convicções econômicas, sociais e políticas”. Pessoalmente, tenho lido muita coisa bacana a respeito desse fenômeno vivido pelo país, logo entendo que é hora de nos esforçarmos para sair desse Fla x Flu ideológico, pois há muitas coisas para serem debatidas e feitas antes que a verdade absoluta de um lado ou de outro acabe ganhando destaque isolado em nossas estruturas de poder.

Pensando nisso, decidi contribuir propondo temas que nos fazem bem para alma, independente da cor partidária, do time de futebol, da religião, enfim. Quero falar do que nos encanta por ser belo e, antes que alguém argumente que em sendo belo sempre haverá o   feio surgindo como contraponto, preciso discordar, pois o belo nos faz bem para alma sem necessitar negar o feio, ou seja, o que verdadeiramente elegemos como belo se basta.

Pensem naquela canção que te pega pela mão e caminha contigo até algum lugar no tempo. Diferente de seu time de futebol, ela não necessita de algo a vencer para fazer seu coração bater mais forte. O que dizer então daquele livro que ao fim lhe fez pensar por horas ou, em alguns casos, até chorar. Diferente da sua posição política, não foi necessário negar outras possibilidades para que aquelas páginas ganhassem lugar em suas histórias e memórias.

O belo se apresenta a nós de forma arrojada, avassaladora e me atrevo a dizer que até invasiva. Trata-se de um fenômeno que minimamente podemos descrever, porém impossível de se traduzir, pois a beleza configura-se em uma espécie de certificação individual  que, por vezes, ganha força coletiva. Nestes casos, acontece um poderoso efeito sinérgico que na maior parte das vezes assegura ao eleito lugar garantido na história de um povo.

Um quadro, uma música, um sorriso, um local, uma história, um rosto, uma voz, um discurso, uma postura, um acontecimento. O belo não tem regras para se manifestar, pois só existe na medida em que alguém lhe sente e reconhece. Assim, o belo depende do humano, logo pode ser incompreendido, ignorado ou até subjugado; contudo, o belo já cumpriu sua função no momento em que se fez possível e único para quem o reconheceu.

O belo verdadeiro é o principal antídoto para a pasteurização da beleza. Assim, alguém pode ter até afirmado ser bela aquela canção que ganhou vida graças à repetição inconsequente de algum veículo de mídia bem remunerado. Mas, ao fim das contas, ela passa, se torna descartável, e o que de verdade é belo ganha espaço nos corações e mentes das pessoas independente de acúmulo econômico, social, cultural e/ou intelectual.

Proponho que reverenciemos o belo e busquemos nesta possibilidade uma saída diante de tantas posturas radicais e sem brilho.

Me despeço com ajuda do mestre Rubem Alves: ”Lutam melhor aqueles que têm sonhos belos. Somente aqueles que contemplam a beleza são capazes de endurecer sem nunca perder a ternura. Guerreiros ternos. Guerreiros que lêem poesias. Guerreiros que brincam como crianças”.

Quer Economizar?

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Pegando carona no grande bonde de palavras dIstorcidas, ou melhor, ressignificadas  pelo senso comum, o verbo economizar acabou se transformando em sinônimo de oportunidade para   gastar o máximo que se pode com produtos precificados abaixo da média de mercado. Lembro-me estarrecido de uma  promoção relâmpago que tive a oportunidade de acompanhar em uma dessas grandes redes de supermercados. Como é de praxe, enquanto as pessoas caminhavam e compravam aquilo que haviam se disposto a encontrar – ou mesmo tantas outras coisas que acabavam lhes seduzindo ao longo das prateleiras – o locutor anunciava que: “Em breve, dentro de alguns minutos, aconteceria uma grande promoção”. Ele não dizia qual seria o produto, muito menos quanto custaria, mas afirmava que seria um momento único, dava dicas para onde as pessoas deveriam se dirigir e conclamava todo empenho dos presentes para que não perdessem tamanha oportunidade.

Com suspense digno de final de novela das nove, aquele homem que agora fazia bater mais forte o coração de centenas de consumidores ávidos por ter um produto para chamar de seu, começou uma contagem regressiva. Em meio a uma loucura coletiva, como se fosse por mágica, cada vez mais pessoas correram até a “meca do preço baixo”  demarcada por ele minutos antes. Assim só restava para o rapaz contar cada vez mais alto e lentamente, assegurando desta forma,  chances equivalentes para  jovens e idosos, afinal, alertava ele: “Corram que não vai ter pra todo mundo”.

Produto e preço anunciados. Minha esposa me narrava a cena onde pessoas disputavam com energia cada unidade disponível de baldes grandes para lavar roupas, anunciados naquele momento por noventa e nove centavos. Jamais imaginei que tanta gente poderia, na mesma hora e local, estar tão necessitada por baldes.

Eu trouxe essa temática para esse espaço pois acredito que comprar pode e deve ser encarado como um ato de cidadania. Sendo assim, mesmo conhecendo e tendo estudado as infindáveis possibilidades da publicidade, entendo que debater o assunto gera empoderamento e pode provocar novos olhares. Então, pagar menos em um balde pode sim ser uma decisão acertada desde que se necessite ou, ao menos,  exista a expectativa de vir a utilizá-lo. Pagar menos, por muitas vezes, é percebido como um prêmio porém, não são  considerados elementos como necessidade/desejo, o que faz com que muitas pessoas deixem de comprar o que querem para adquirir o que lhes ofertam de última hora.

Para piorar a situação vivemos em um país onde a decisão por pagar caro por muitas vezes acaba sendo entendida como meio de alavancagem de status social, mas paradoxalmente  na mesma proporção, também se pode fazer a leitura de que se trata de uma postura  arrogante e prepotente. Então, vejam que loucura: economizar para boa parte dos brasileiros significa comprar o que quer que seja, desde que seja barato. Para outros tantos significa sinônimo de humildade, um exercício extremo de desapego manifestado publicamente e que pode até ser merecedor de  um futuro lugar no céu.

Henry Ford dizia que “Economia, frequentemente, não tem relação com o total de dinheiro gasto, mas com a sabedoria empregada ao gastá-lo”. Vale então refletir sobre quais os principais fatores que tem nos levado a comprar, lembrando que este não é um espaço de educação financeira. Estamos falando aqui de inclusão e cidadania e propondo que economizar deixe de ser uma ação tomada por impulso ou baseada no senso comum do conceito para se transformar em protagonismo efetivo de consumidor, levando é claro sempre em conta, a escassez dos recursos, os sonhos, as necessidades e as possibilidades decorrentes de cada aquisição.

Economizar é mais do que pagar menos. Trata-se de vivenciar uma experiência de compra inteligente.

O Brasil não sabe o que quer. E você? – Parte III

Bandeira do Brasil

Chegamos ao fim desta série de textos repletos de temas que nos desafiam a formar opinião. São os últimos quatro eleitos que, se mais explorados, ofereceriam um ilimitado leque de possibilidades.

  1. Segurança pública

Este é daqueles assuntos que quando começam ganham desdobramentos intermináveis, porém sempre com abordagens superficiais e distantes de qualquer possibilidade imediata da resolução de problemas. A violência nos centros urbanos do Brasil mata mais do que muitas guerras iniciadas e já findadas ao redor do mundo. Pena de morte, redução da maioridade penal, mais polícia nas ruas. Vejam que as ideias exaustivamente debatidas pelos leigos e/ou pelos entendidos ”do riscado”, se mostram frágeis e não nos dão qualquer esperança de dias melhores. Nossos atuais mandatários de esquerda, direita ou orientação política indefinida, não tratam do assunto à altura do que se necessita e a sociedade, tampouco, debate com a profundidade que a urgência exige. Que ansiamos por segurança é fato. Mas que caminhos esperamos que sejam tomados para que se avance com velocidade neste sentido?

  1. Crise hídrica e energética

Nunca se ouviu tanta gente debatendo a seca na cidade de São Paulo ou possíveis futuros apagões pelo Brasil. Me perdoem o trocadilho infeliz, mas não dá para perder a piada. O que se passa, de fato, é que ‘caiu a ficha’ que se corre o risco real da água não bater onde se costuma dizer no dito popular. Mas, isto posto, faz-se necessário ultrapassarmos a fase de debates sobre os culpados desse caos para começar a defender propostas e soluções imediatas e de longo prazo para os problemas. Usinas de dessalinização? Termoelétricas? Transposição de rios? Energia nuclear? São possibilidades para todos os gostos e acredito que buscar entender um pouco mais sobre cada uma delas possibilitaará ao povo brasileiro botar isso na  pauta de debates das próximas eleições como assuntos prioritários. Daí em diante é lutar democraticamente para que o melhor projeto de país saia vencedor, afastando de vez os fantasmas que já deveríamos ter combatido há décadas atrás.

  1. Casamento gay

Eu disse no início dessa série que não iria emitir opinião, pois o que espero é provocar reflexões. Contudo, ao chegar neste tema, não posso deixar de dizer que entendo como surreal ainda existirem impedimentos sociais e legais para que pessoas possam viver juntas, se amando e sendo felizes. Pior ainda é a hipocrisia que permeia este debate, pois na contramão do que pregava o grande Paulo Freire, pessoas com discursos aparentemente modernos e progressistas acabam protagonizando em suas vidas pessoais e profissionais uma prática conservadora e preconceituosa. Conhece alguém assim?

10. Corrupção

Muita gente acha que corrupto só existe na política e só se vê na televisão. Infelizmente isso cria a falsa sensação que o problema é distante e que a culpa está sempre no outro. Se fizermos uma pesquisa tenho a impressão que uma esmagadora maioria da população se colocaria contrária e indignada diante das ações de corrupção. Mas também imagino que se o mesmo instituto de pesquisa desenvolvesse uma metodologia para identificar pequenos hábitos de legalidade duvidosa, chegaríamos a  números constrangedores. Achismos à parte, acredito que o Brasil pode sim dizer não à corrupção, porém o povo precisa decidir que sim.

Qual a sua opinião?