A desconstrução do panelaço

Por Carlos Ferrari - Atualizado em: quarta-feira, Março 11, 2015 - Compartilhe/Salve - Deixe um comentário
pessoas com panelas nas mãos

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Acompanhamos pela internet e pelos grandes veículos de mídia o panelaço do último domingo, 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Tratou-se de um conjunto de manifestações atomizadas fisicamente e, ao mesmo tempo, altamente conectadas via redes sociais. A gritaria brotou das sacadas de prédios e janelas de residências de centenas de lares brasileiros habitados por cidadãos insatisfeitos com as atuais práticas e perspectivas apresentadas pela Presidente Dilma Rousseff.

O fenômeno se deu no momento em que a mandatária da nação se pronunciava em rede nacional pedindo apoio e compreensão frente aos ajustes fiscais e à toda a crise experimentada pelo povo, empresas e instituições tradicionais do país.

Os resultados decorrentes de tais acontecimentos não foram surpreendentes, pois mais uma vez o que se viu e ouviu foi um debate caracterizado por uma dicotomia rasa, onde de um lado se maldizia Dilma e seu partido, e de outro se condenava as manifestações. O Partido dos Trabalhadores, já na madrugada de segunda-feira, se manifestou por meio de nota sustentando uma linha de raciocínio que trazia por pilar estruturante a fala do Vice-presidente e Coordenador de redes sociais do partido, Alberto Cantalice, afirmando que: “existe uma orquestração com viés golpista que parte principalmente dos setores da burguesia e da classe média alta”.

Neste espaço onde por anos temos discutido inclusão, cidadania, participação popular e controle social, cabe agora refletirmos juntos sobre qual o risco de se desqualificar a possibilidade de se manifestar a partir de filtros que rotulem determinados segmentos como legítimos ou não. Classificar manifestações democráticas e pacíficas como golpe, levando em conta recorte de renda e localização geográfica, me parece ir na contramão de tudo porque temos lutado quando o assunto é democracia.

A célebre afirmação de Voltaire, que nos guia como um mantra quando falamos em liberdade de expressão dizia: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las”, não trazia consigo em qualquer momento condição econômica, racial ou de gênero para ser legítima.

Não entro no mérito das manifestações, nem tão pouco dos atuais ajustes feitos pela gestão petista, contudo creio que tentar rotular a insatisfação de parte da população como sendo golpe de burgueses e brancos endinheirados, configura-se em uma estratégia que ameaça e agride toda nossa caminhada democrática.

É evidente que precisamos ficar alertas frente às possibilidades infinitas de  manipulação da opinião pública pela grande mídia, como também ficarmos atentos diante de retóricas oportunistas defensoras de um impeachment imediato e a qualquer custo. Isto posto, não podemos permitir que se tenha uma “curadoria” de manifestações no Brasil, dizendo ao povo sobre o que é ou não legitimo se de pleitear.

Criou-se uma falsa verdade absoluta, sustentada por três falsos rótulos atribuídos a quem critica o governo atual, que devem ser desconstruídos com urgência para avançarmos na consolidação de um país verdadeiramente democrático.

O primeiro vai na linha de infantilizar os pleitos. Montam-se textos rebuscados, repletos de situações e palavras em desuso, com o único objetivo de desqualificar quem está se manifestando, fragilizando assim possíveis futuros debates.

O segundo busca botar toda oposição em um mesmo balaio político, ou seja, se está contra o governo da Presidente, significa ser de direita, reaça e fascista. Devemos lembrar que apesar de se autodenominar como de esquerda, o governo atual não tem avançado em temas caros para a consolidação de uma gestão progressista. Pois é, não dá para cair na falácia de que só se é esquerda no Brasil se defender o governo federal. Alguém já ouviu a Presidente defendendo a descriminalização do aborto ou mesmo algum ministro falando com entusiasmo sobre a descriminalização das drogas?

Por fim, vem o rótulo mais utilizado atualmente. Trata-se do burguês branco e golpista. Pessoalmente conheço muitos que ganharam essa certificação, porém estão com a conta do banco arrebentada, CPF negativado e o único golpe que conhecem geralmente trata-se de algum daqueles aplicados por espertalhões virtuais ou presenciais.

Nossa democracia é jovem e não tenho dúvidas que todo nosso empenho deve ser no sentido de fortalecê-la. Assegurar o direito de criticar o PT, o PSDB e/ou qualquer outra instituição, desde que sejam sempre considerados os princípios e valores que nos permitiram chegar até aqui.

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