Nossas festas de fim de ano

Por Carlos Ferrari - Atualizado em: segunda-feira, dezembro 22, 2014

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E, felizmente, é mais forte do que a tal ‘rotina’ que quase sempre nos vence na grande maioria dos 365 dias do ano. Seja por motivos comerciais, seja pela fé individual ou coletiva, seja pela tradição construída e transmitida por nossa ancestralidade, o fato concreto é que o Natal já tomou as ruas, lojas, conversas, planos de curto prazo e, claro, nossos sentimentos.

À propósito, sabemos que não é essa, para todos, uma época de alegrias e boas lembranças. Muitos não gostam e até rejeitam, mas sentem com intensidade a chegada da data de celebração oficial de nascimento do Cristo Salvador.

As festas de fim de ano trazem consigo a cada ano uma dose cada vez maior de ingredientes como: nostalgia, consumismo, glamour e ‘goumetização’ de cardápios eleitos como os ideais para o momento. Mas seria injusto afirmar que para os tempos atuais só sobraram lembranças e comércios lotados. O Natal é a perspectiva de entrada de um novo ano, traz consigo a capacidade mágica de se renovar e, por consequência, renovar as esperanças e o modo de vida de milhões de famílias cristãs ao redor de todo o planeta ao menos por alguns dias.

A criança sorridente, feliz à espera de um presente, independente de qual valor ele possa ter, os casais e amigos envolvidos em torno da expectativa de como serão os pratos e as festas que lhes darão a possibilidade de comemorar juntos, os tantos outros reflexivos(as) diante da dor presente que preenche um espaço de saudade aberto pela perda de alguém que não está mais entre nós. Toda essa efervescência de sonhos, sensações e vida real é o que nos faz a cada dia desse mês de dezembro ter um ritmo de vida diferente.

2014 para muitos não foi fácil. Para outros é, sem dúvidas, o ano da vida. E, talvez  alguns mais, entendam que apenas passou batido. Pessoalmente defino como um ano intenso, bastante complexo pelas dificuldades econômicas enfrentadas pelo país e pelos debates acirrados em torno do processo eleitoral. Um ano de festas e lágrimas provocadas pela passagem bem sucedida, porém avassaladora, da Copa do Mundo por aqui. Um ano verdadeiramente histórico pelo marco da reaproximação entre Estados Unidos e Cuba. Esse foi um ano de trabalho, de desafios imensos repletos de possibilidades para 2015.

Então é chegada a hora de agradecer e desejar. Obrigado  a vocês que me acompanham pelo blog, pelos jornais e os tantos outros espaços de mídia que acabam nos assegurando  a oportunidade de trocar ideias e pensar juntos. Obrigado a meus alunos, colegas de trabalho, companheiros de militância e tantos outros que não sei nominar, mas que fizeram parte de momentos únicos nesta caminhada que tenho feito pelo Brasil. Obrigado aos atuais e ex-colaboradores da Avape, pessoas verdadeiramente especiais, pois é graças a essa capacidade de acreditar e de lutar que estamos testemunhando uma Organização com mais de trinta anos a reescrever seus caminhos. Obrigado a meus amigos e familiares, fontes seguras de acolhida, amor, sorrisos gratuitos e palavras de conforto e incentivo.

Desejo que possamos terminar o ano melhor do que começamos. Espero que 2015 seja uma versão atualizada e melhorada de 2014, onde possamos conviver mais, sorrir juntos e trabalhar em sinergia para um país melhor.

Boas festas!

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Os estuprados por Bolsonaro…

Por Carlos Ferrari - Atualizado em: sexta-feira, dezembro 19, 2014

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A fala fatídica do lamentável deputado colocou no mesmo balaio duas palavras que jamais estariam juntas se fossem considerados elementos como: bom senso, civilidade e humanidade. Ao dizer que não estupraria sua colega de Congresso Maria do Rosário, porque ela não merecia, o homem mais votado pelo estado do Rio de Janeiro, investido da condição dada a ele pelo povo, colocou lado a lado estupro e merecimento.

Podemos por horas conversar, refletir, buscar entender o que leva pessoas de bem, em sua grande maioria, depositar o seu voto em uma figura detentora de tamanho desalinhamento com valores básicos para as relações humanas e exercício da cidadania. Não entro aqui no mérito de julgamento de atributos relacionados à deputada agredida. Antes de qualquer coisa estamos falando de uma mulher, no caso dele de uma colega de trabalho, e claro, antes de qualquer coisa, de um ser humano.

Bolsonaro é produto efetivo resultante da falsa ideia disseminada que defende a truculência, o ódio e a punição sumária como únicas respostas para a resolução de nossos infindáveis problemas sociais. Quem com ele concorda, o faz sempre com coração ardendo de raiva, muitas vezes uma fúria incontida sem destinatário concreto, mas sempre ao ponto de transbordar podendo atingir quem quer que esteja por perto.

No caso, o voto em Bolsonaro atingiu em cheio os pilares estruturantes da nossa “jovem democracia”. Sem qualquer exagero, ao fim das contas, estuprados fomos todos nós, povo brasileiro, que assistimos perplexos, o descalabro retórico de um dos membros eleitos para nos representar, elaborando leis e fiscalizando o executivo a partir do Congresso Nacional.

Mas então, o que podemos fazer diante disso?

Parafraseando Darci Ribeiro, “só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca”. Creio que o antídoto para tal postura, tem por fórmula básica, nossa posição firme, verbalizada e consistente. Já testemunhei amigos antenados rindo diante de tamanho absurdo, fazendo que uma postura violenta acabe se transformando em motivo para chacota.

Não pode ser assim. Rir é natural quando estamos diante de um fato bizarro e descolado de qualquer possibilidade de compreensão ou condescendência. Assim, passado o riso de desespero, há que se ficar alerta! Precisamos nos posicionar, negar veementemente e plantar em nossas conversas do cotidiano uma semente de reflexão que iniba futuras eleições de figuras como essa.

Defender nossa democracia passa, dentre tantas coisas, por concentrarmos esforços para conscientizar aqueles com os quais nos relacionamos quanto aos cuidados que deve se ter na hora de escolher nossos representantes, seja para o executivo ou legislativo. As últimas eleições foram marcadas por um Fla x Flu ideológico. Pessoas brigaram, amigos se afastaram, mas infelizmente toda essa energia não foi suficiente para elevar a qualidade do voto, ao ponto de deixar de fora esse tipo de político.

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Armadura de guerra e espírito de celebração

Por Carlos Ferrari - Atualizado em: segunda-feira, dezembro 1, 2014

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Parece paradoxal, não? E creio que, de fato, esta seja a tônica que marca nossa militância enquanto movimento de luta pelos direitos das pessoas com deficiência nos dias atuais.

Neste dia 03 de dezembro, mais uma vez celebramos a data internacional que marca essa jornada recheada de capítulos que povoam nossa memória, reforçando essa dicotomia entre conquistas e batalhas.

Já pudemos nos abraçar para celebrar ganhos históricos, como por exemplo, a ratificação pelo Brasil de uma Convenção Internacional da ONU, elaborada a partir do protagonismo do próprio segmento, como também já nos vimos repetidas vezes,  unidos  indignados, diante de bandeiras históricas ainda não atendidas, como o aumento da per capita de um quarto do salário mínimo como condicionante de  acesso ao Benefício de Prestação Continuada, o BPC.

Vibramos  diante das possibilidades tecnológicas viabilizadas pelos atuais smartphones, assegurando total autonomia para interação com os equipamentos para cegos, paralisados cerebrais, amputados, dentre tantas outras pessoas com limitações. Ao mesmo tempo, temos que nos indignar diante da falta de consciência de empresas de pagamento que colocam no mercado suas ‘maquininhas de cartão’ com um teclado touch sem qualquer acessibilidade, ignorando e desrespeitando milhões de consumidores que, da noite para o dia, se vêem impedidos de digitar suas senhas graças à miopia mercadológica dessas corporações.

Antes que alguém possa dizer que isso é ‘coisa do mercado’, cabe lembrar que o Estado Brasileiro também é especialista em transformar coisas boas em enormes transtornos. A mesma pessoa com deficiência tem direito a reserva de vagas em concurso público, compra de veículos com isenções tributárias, reserva de vagas em estacionamentos, aposentadoria especial, dentre outros. Mas, saibam caros leitores, para cada um desses direitos que poderiam ser comemorados e facilmente acessados, existe um calvário burocrático a ser perseguido marcado pela busca por laudos, submissão a perícias equivocadas, além de uma confusão crônica que, muitas vezes, leva alguns a pensarem que tais direitos são favores ofertados graças às benesses provenientes da gestão A ou B.

Dias desses, voltando de Brasília para São Paulo, ouvi de um companheiro de poltrona um comentário que manifestava sua satisfação por ver cada vez mais pessoas com deficiência cruzando os céus do Brasil. Segundo ele, a melhoria do poder de compra, somada ao empoderamento técnico-político do segmento, podem ser fatores relevantes a serem considerados para a comprovação deste fenômeno. Concordando em partes com o amigo, coloquei água no ‘choppe’ imaginário que regava a nossa conversa pois, infelizmente, junto com a chegada deste segmento aos aeroportos e aeronaves, não  veio o respeito necessário que mereceria um público que está injetando recursos no setor. Não se trata de exceção, mas sim de casos de pessoas com deficiência esquecidas em aeronaves ou mesmo no momento do embarque, acentos de prioridades garantidos por lei sendo vendidos sem qualquer constrangimento, além de um total descaso com as especificidades que marcam cada deficiência mostrando  que aeroportos e companhias aéreas não estão nada preocupados com o segmento.

Já manifestei em outros artigos publicados neste espaço, minha postura otimista diante da nossa caminhada. Gosto muito mais de celebrar do que de botar a armadura de guerra para lutar contra as posturas preconceituosas e discriminatórias presentes em nossa sociedade.  Isto posto, temos que ter claro que não podemos mais aceitar com naturalidade argumentos como, “desculpe tenho um cardápio em Braille, mas está desatualizado”, “perdão mas não temos banheiros adaptados”.

A lei de acessibilidade tem mais de dez anos e não podemos ter vergonha de cobrar de maneira intransigente seu comprimento junto a todos os setores da sociedade.  Pessoalmente já estou elaborando minha lista das dez grandes novidades do ano que me fazem comemorar os avanços testemunhados por nosso segmento. Também estou elencando os dez pontos negativos que me fazem estar alerta diante de nossas responsabilidades enquanto militantes e cidadãos de direito.

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E teve até Toré…

Por Carlos Ferrari - Atualizado em: segunda-feira, novembro 24, 2014

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Mas se você me perguntar o que de fato é isso? Não… não sou eu que posso lhe contar. Mas sim, de acordo com o que aprendi a gente não precisa aprender, simplesmente se lembrar daquela dança que um dia aprendemos a dançar.

No fim de uma capacitação intensa junto a trabalhadores, usuários e gestores da Assistência Social em Campina Grande, tudo o que sabíamos e sentíamos era que algo havia acontecido com intensidade. Angústias, perguntas, conteúdos compartilhados e debatidos, respostas propostas, sonhos contados e divididos foram alguns dos ingredientes que nos fizeram ter a clareza que retornávamos para casa diferentes. Todas as falas, os sorrisos, encenações finais e o nosso Toré deixavam claro para quem pudesse ou quisesse ver que ali,  mais do que um grupo de alunos e professores atomizados pelos seus compromissos e interesses do cotidiano,  o que se tinha de fato era unidade e sinergia. A força de nosso canto final mostrava aos passantes e a nós mesmos que éramos todos parte de um ideal a ser celebrado e constantemente perseguido.

João Batista do Espírito Santo Júnior é militante, pernambucano, trabalhador da Assistência Social e dono de um protagonismo conquistado a partir de uma liderança exercida enquanto jovem durante caminhada construída pelo Movimento Nacional dos Meninos e Meninas de Rua. Naquele dia, Junior era nosso colega, membro da equipe de facilitadores com a responsabilidade de discutir CRAS e CREAS. Junto com Rose, Júnior chegou de Jaboatão dos Guararapes, assumiu a maior oficina do evento e construiu, ao lado da colega eleita para desempenhar a missão e as dezenas de alunos de sua turma, uma proposta de apresentação final que terminava no jardim.

De repente estávamos em roda. Eu, paulista desconfiado, já fiquei imaginandoqual será a dinâmica que o Júnior escolheu para fechar? Poderia ser mais uma das tantas que já aprendemos e aplicamos nessas aulas Brasil a fora. Os dois já haviam me dito na noite anterior que rolaria um Toré. Sem saber do que poderia ser, decidi não perguntar, pois nada melhor para conhecer do que a própria experiência vivenciada.

Em meio à roda, Júnior começou nos lembrando das formigas. Falava da velha lição que elas nos passam por meio da sua fragilidade individual e da força enorme adquirida quando decidem estar juntas. Depois veio a música, pisa, pisa, pisa, pisa bem ligeiro, quem não pode com a formiga não assenta o formigueiro. Iniciando lentamente em sentido horário, todos batendo juntos e forte o pé direito no chão. Cantoria mais ritmo ganharam em poucos segundos um peso de dar inveja  a Bill Order e Tony Iommi, mesmo em seus anos de maior criatividade nos tempos de Black Sabbath.

Para alguns que estavam lá, aquilo pode ter sido uma brincadeira; para outros parte da conclusão da oficina; para mim, particularmente, uma verdadeira tradução do que cantou Engenheiros do Hawai, “Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter.

Pode ter certeza, vale perguntar para o Google e pedir para o Youtube um pouco mais de informações, sons e imagens sobre a beleza do Toré e todo o potencial dessa dança na construção da indianidade de vários povos e tribos desse país.

E seguimos adiante na luta por um SUAS cada vez mais forte: “Pisa, pisa, pisa, pisa bem ligeiro, quem não pode com a formiga, não assenta o formigueiro.

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Once Upon a Time

Por Carlos Ferrari - Atualizado em: segunda-feira, novembro 17, 2014

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Essa semana terminei uma maratona diante de 22 episódios que compuseram a primeira temporada da série Once Upon a Time.  Foi muito intenso acompanhar a jornada de Branca de Neve, João e Maria, Pinóquio, Grilo Falante, o Principe Encantado, a Rainha Má, Chapeuzinho Vermelho, o genial Rumpelstiltskin, entre outros.

Cabe, antes de tudo, contextualizar um pouco sobre a proposta da série, antes que algum leitor conclua que esse que vos escreve definitivamente enlouqueceu. A ideia de Edward Kitsis é trazer, para os dias de hoje, todos as personagens dos contos de fada. A turma chega por aqui graças a uma maldição e convivem em uma pequena cidade americana sem se lembrarem, em sua grande maioria, quem verdadeiramente são. Aqui no Brasil, você pode acompanhar a série por meio da TV fechada, além do conteúdo estar disponível em um serviço de stream pago.

Mas eu trouxe esse assunto para cá, não apenas por ter me divertido muito com as aventuras e angústias vivenciadas pelos nossos heróis em suas vidas passadas e presentes. O que penso que vale realmente discutirmos é a ousadia que temos testemunhado diante da releitura de histórias que passaram por inúmeras gerações, reforçando a mensagem de que o bem e o mal são verdades absolutas que fazem das relações – humanas ou fictícias – dois pólos opostos que, ao final, terão um desfecho feliz e perfeito com um lado vencedor e outro derrotado.

Sem dar qualquer pista sobre a história, o que posso lhes afirmar é que temos neste seriado um material totalmente diferente. Ninguém é totalmente bom ou ruim, o que nos faz refletir a partir de uma perspectiva bem mais complexa e questionadora diante das causas e consequências que se desenrolam capítulo a capítulo. Você vai pular do sofá quando se deparar com a história do lobo mau!

Aqui no país, João Emanuel Carneiro também pensou fora da caixa. Milhões de brasileiros que acompanharam a novela global Avenida Brasil, puderam experimentar de forma inovadora e emocionante, a possibilidade de vibrar – e se decepcionar – com as mesmas personagens repetidas vezes durante a trama, expondo imperfeições de “mocinhos” e a sensibilidade de “vilões”, sinalizando a telespectadores historicamente acostumados a roteiros previsíveis, que nos dias de hoje nada mais pode ser considerado definitivo.

A Disney também saiu do lugar comum se propondo a contar velhas histórias a partir de novos olhares. Vale muito a pena acompanhar com os nossos pequenos a mensagem passada por Malévola, e claro, toda a beleza coroada pelo final, bastante distante do convencional, proposto em Frozen, maior produção da companhia em todos os tempos.

Com certeza as boas histórias continuarão fazendo parte de nossas vidas e sonhos, mesmo com finais não tão felizes. Até por que, vamos combinar: o que vale, de verdade, é o que se vive ao longo do caminho.

Era uma vez…

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Sustentabilidade sem acessibilidade é insustentável

Por Carlos Ferrari - Atualizado em: quarta-feira, novembro 12, 2014
Logo da acessibilidade (ABNT) cravado em um tronco de árvore.

Logo da acessibilidade (ABNT) cravado em um tronco de árvore.

O desenvolvimento sustentável enquanto alternativa concreta para evoluirmos como civilização mais saudável, justa e economicamente viável, tem se mostrado uma proposta imbatível diante de quaisquer possibilidades de argumentos contrários. Cada vez mais as pessoas vão percebendo que essa conversa deve e pode ir muito além das questões ambientais relacionadas ao clima, ao solo, às florestas, rios e à qualidade do ar.

Elementos sociais, políticos, culturais e históricos entram na pauta, fazendo com que relacionamentos, crenças, hábitos e pontos de vista sejam ressignificados, tomando por norte a construção de projetos colaborativos, a promoção da troca de conhecimento e a geração de energia a partir de esforços anteriores. Mas nem tudo são flores, visto que, muitas vezes, a paixão pelo que se defende acaba ganhando mais força do que a preocupação com o impacto real na vida das pessoas. Como dizia o nosso grande Paulo Freire, as coisas, de fato, só ganham sentido na medida em que conseguimos verdadeiramente aproximar o discurso da prática. Uma cidade pode ser aplaudida por funcionar com energia limpa, celebrada por destinar corretamente 100% de seus resíduos, porém, nada disso serve se a mesma cidade não estiver adequada para que pessoas, independente de suas limitações, possam circular e se apropriar dos espaços públicos.

Recentemente estive em um evento onde se discutia estratégias e conteúdos importantes para a pauta dos objetivos sustentáveis.  Lá não havia material em formato acessível para que cegos pudessem acompanhar as explanações, tão pouco intérpretes de LIBRAS para os surdos. Você pode dizer, “talvez tenha sido apenas um deslize“, mas vejam que isso deveria ser condição básica para dar início a uma conversa que realmente se sustente considerando o fato de que participarão pessoas com características e necessidades diferentes.

Ao fim das contas, o debate que creio que deve ser feito é sobre que mundo queremos e/ou podemos construir a partir de uma mudança de postura pessoal e coletiva. Neste sentido a sustentabilidade sem acessibilidade no centro das prioridades não se sustenta, pois exclui pessoas e, em decorrência disso, a ideia acaba perdendo aliados. É importante dizer que trago essas reflexões não apenas considerando o segmento de pessoas com deficiência. Precisamos que o mundo esteja acessível para os seus idosos, as gestantes, os pobres e ricos, ou seja, necessitamos que a convivência entre seres humanos seja sustentável considerando as múltiplas possibilidades da vida em sociedade.

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Surpreendentemente jovens

Por Carlos Ferrari - Atualizado em: terça-feira, novembro 4, 2014
Da esquerda pra direita: Patrícia Raposo, Leonardo Apolinário, Willian Cunha, Alceu Kuhn e Carlos Ferrari.

Da esquerda pra direita: Patrícia Raposo, Leonardo Apolinário, Willian Cunha, Alceu Kuhn e Carlos Ferrari.

Semana passada participei de um Encontro Nacional que se propôs a promover a incidência política de jovens cegos no Brasil. Fazer parte deste processo, como palestrante e membro da direção da entidade nacional organizadora, foi uma experiência que superou todas as minhas expectativas, e espero poder neste texto, ter a capacidade de esculpir com palavras o tamanho do significado desta experiência para mim enquanto cidadão e militante.

Tecnicamente, sou cego desde que nasci, porém, foi na fronteira da adolescência com a idade adulta que comecei a experimentar as infinitas possibilidades que se tem quando se aceita, de fato, como realmente somos. Nunca neguei a cegueira, mas foi conhecendo outros colegas cegos e participando de associações de base que descobri que podemos ser mais fortes juntos, aprender com nossas limitações e ensinar com nossas potencialidades. Em 1999, a convite de um amigo, decidi seguir de ônibus até Guarapari, no Espírito Santo. Lá se realizaria um Encontro Nacional de Educadores de Deficientes Visuais e seria, também,  a minha primeira experiência em eventos organizados pelo movimento associativista nacional.

Há fora todo o desafio de seguir para um Estado desconhecido acompanhado apenas pela bengala, aqueles dias me foram especiais, pois me oportunizaram conviver com lideranças históricas para o segmento. Talvez muitos de vocês leitores não conheçam nomes como: Hamilton Garai da Silva, Edison Ribeiro Lemos, Adilson Ventura, Dorina Nowill, todos já falecidos, porém ainda muito vivos na memória de todos que trabalham nessa área. Poder conviver com eles, bater papo, almoçar, enfim, estar próximo, foi um aprendizado e uma emoção que afirmo, sem medo de errar, acabaram me fazendo um homem diferente para a vida toda.

Agora, quinze anos depois estamos aqui em João Pessoa. Eu, nosso presidente Moisés Bauer, Mizael Conrado, vice-presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro, Volmir Raimondi, presidente da União Latino-Americana de Cegos. Agora, somos nós os líderes, e claro, também de certa forma, os responsáveis por estimular os que estão chegando a escreverem os próximos capítulos dessa história de luta.

Afirmo-lhes caro leitores, que saio daqui com a convicção que temos um belo caminho pela frente. Pude trocar ideias com uma moçada questionadora, propositiva, conectada e principalmente, convicta de que querem serem – eles próprios – os protagonistas da luta por direitos no Brasil.

Foram dias intensos com muitas palestras, mas também de rodas de conversa com cantoria e muito bate-papo durante os intervalos. Decidi escrever esse texto para homenagear os mestres que me motivaram a chegar até aqui e os futuros líderes que, em algum momento, assumirão a condução de nosso movimento. Também escrevo para lhes provocar a refletir sobre o quanto é importante termos referencias para um dia também, quem sabe, virmos a ser referência.

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Mais perdido que cego em tiroteio…

Por Carlos Ferrari - Atualizado em: quinta-feira, outubro 16, 2014

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Por mais paradoxal que possa parecer em determinados momentos, um grande tiroteio pode ser extremamente orientador para cegos se localizarem com precisão. É claro que isso não ocorre no mundo real, mas, acreditem, no virtual a mágica acontece propiciando momentos de grande emoção e adrenalina.

Vocês já devem ter percebido que o assunto da nossa conversa de hoje são games. Meu primeiro contato com essas maravilhas foi lá pelo meio dos anos oitenta. Mesmo sem enxergar, os sons e as possibilidades desafiadoras dos muitos jogos disponíveis para Atari e outros consoles similares me fascinavam, o que fez com que familiares e amigos me estimulassem a jogar, dando orientações como “mais para direita, esquerda, abaixa, atira”. Claro que meu desempenho não era nem de longe um dos melhores, mas, acreditem, dava sim para brincar e me divertir, até porque o nível de previsibilidade dos jogos permitiam que, com alguma disciplina e muito treino, podíamos jogar até de olhos fechados.

No fundo, o que valia mesmo era a paixão e o prazer de compartilhar momentos de lazer e entretenimento com a turma de minha idade. Se você achou loucura um cego jogar vídeo game, recomendo que conheça a história de Jordan Verner, um jovem cego canadense que se propôs a terminar o game “The Legend of Zelda: Ocarina of time”. O cara demorou dois anos, mobilizou uma galera na Internet e, segundo ele, o esforço valeu a pena. Segue o link de um fórum de games que debate a história:  http://romhacking.trd.br/index.php?/topic/5932-um-cego-zera-legend-of-zelda-ocarina-of-time-depois-de-2-anos/

Quase vinte anos depois de ganhar meu primeiro vídeo game, conheci os áudio games. Isso aconteceu há quase sete anos e os tais joguinhos eram realmente empolgantes. Com tecnologia de orientação pelos fones de ouvido, dava para combater naves espaciais, pilotar carros em meio a rallys e enduros, além de escalar prédios e fugir de prisões. Os jogos eram todos sem imagens e só podíamos jogar entre cegos.

Mergulhei nesse universo, ajudando a organizar o primeiro ‘Encontro Nacional de Áudio Games’, virando noites em competições virtuais e contribuindo para tradução de áudios que compunham o ambiente sonoro dos jogos. Muita gente não entendia, por exemplo, como eu participava em competições de corrida de automóveis. A ideia é relativamente simples: o condutor deve manter o som do motor de seu carro centralizado entre os dois fones de ouvido. Assim, sempre que o carro sai um pouco para direita ou para esquerda, o jogador rapidamente, por meio de um joystick ou mesmo das setas do teclado, deve trazer seu veículo de volta para o centro. Já para fazer as curvas abertas ou fechadas, existe uma orientação por voz, como por exemplo: “curva fechada à direita!”. Caso você queira conhecer mais do que estou falando e até baixar alguns jogos para experimentar, visite o www.audiogames.com.br.

Em 2011, decidi por mudar de plataforma enquanto usuário de computador, e essa saída do ambiente Windows me afastou novamente do fantástico mundo dos games.

Na última semana recebi um email falando do Nébula. Trata-se de um jogo para a plataforma IOS, ou seja, podemos jogar no Iphone ou Ipad. Diferente de tudo o que eu já havia conhecido, esse jogo traz a possibilidade de pessoas sem deficiência e cegos jogarem juntos. Isso porque, neste caso, também se tem os gráficos visuais.

Jogos textuais como o Sonora, o Perguntados e alguns outros já permitiam isso. Contudo, o inovador desta história foi a possibilidade de combate em ambientes simulados.

Ainda estou em fase de testes. Tentei um bate-papo com os desenvolvedores até fechar esta coluna, mas, infelizmente, não deu certo. Fica o convite para que você possa baixar o jogo oferecido em duas versões: uma paga, com 32 fases, e outra gratuita, onde se pode viver toda a experiência.

Reserve os fones de ouvido e bom divertimento inclusivo!

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Luta Armada

Por Carlos Ferrari - Atualizado em: sexta-feira, setembro 19, 2014
Imagem: 21 de setembro. Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência.

Imagem: 21 de setembro. Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência.

Na semana em que comemoramos o Dia Nacional de Luta pelos Direitos da Pessoa com Deficiência, podemos constatar que ainda não são fáceis, nem tão pouco confortáveis, a condição de nosso segmento frente aos inúmeros direitos violados, seja pela lentidão das ações de responsabilidade do Estado brasileiro, seja pela falta de estratégias claras adotadas pela sociedade com vistas a superar problemas históricos, que persistem mesmo diante de uma legislação moderna e complexa.

Assim como em anos anteriores, em 2014 temos em mãos uma arma poderosa que pode, se utilizada com sabedoria, nos ajudar a combater com um poder imenso toda essa lentidão que persiste e, infelizmente, acaba ofuscando uma série de avanços já conquistados em anos de lutas por direitos.

Quer conhecer um exemplo? De acordo com o Censo IBGE 2010, temos aproximadamente 45 milhões de pessoas com deficiência no Brasil. Estamos falando em quase um quarto da população, mas, junto deste número, ainda patinamos desde 2008 nos poucos mais de trezentos mil inseridos no mercado de trabalho formal. Os números nos apontam uma urgência de novas ações que nos permitam caminhar com vistas a alcançar as mais de novecentas mil vagas disponíveis, isso se considerarmos apenas a Lei de Cotas. Os dados falam por si só, e comprovam que Estado e sociedade acabam fazendo mais do mesmo, ou seja, punem empresas que não cumprem a cota, ampliam ofertas de cursos de capacitação desarticulados, firmam termos de ajustes de conduta, enfim, estratégias bacanas, mais ainda muito aquém do que podemos fazer.

A falta de ações ousadas e efetivas se repete quando o assunto é acesso a direitos. Temos que ficar constantemente renovando laudos, acumulando carteirinhas e nos recadastrando em cada novo programa, que insiste em trazer consigo uma nova exigência, colocando pessoas com deficiência e seus familiares a mercê de agendas com datas distantes, entendimentos subjetivos e avaliações ainda mal resolvidas que se perdem em meio ao debate, que ressignifica o modelo médico para o modelo social de olhar para essas deficiências.

Também é lamentável como nossos movimentos de luta são tratados atualmente pelas três esferas de governo. Afirmam que nos ouvem, nos chamam para conversar, porém acabam na maior parte das vezes decidindo com base em seus entendimentos ideológicos. Entidades, movimentos de defesa e garantia de direitos em sua grande maioria vivem sem recursos e dependem de projetos pontuais para vez ou outra poderem se reunir. Assim, não renovamos nossas lideranças, pois se quer temos perspectivas de financiamento público para custear momentos de formação e mobilização.

É urgente que o Brasil assuma o desafio de construir uma política efetiva voltada às pessoas com deficiência. Precisamos empoderar os conselhos municipais, estaduais e nacional da área, atribuindo-lhes caráter deliberativo e condições dignas para se reunir. A propósito, sabe qual a diária que recebe um conselheiro nacional quando vai para Brasília? Atualmente são aproximadamente R$ 321,00 para custear despesas com hospedagem, deslocamento e refeição. Além, é claro, do fato concreto de quem está lá não está naqueles dias trabalhando para obter qualquer outra fonte de renda.

Sou totalmente contrário à remuneração direta de agentes que atuam em espaços democráticos de participação popular, contudo, já passou da hora de termos estratégias afirmativas que fortaleçam entidades e movimentos, a partir de uma perspectiva que lhes garanta autonomia e profissionalismo quando se fizerem representar.

As armas que temos na mão são nosso voto consciente e propostas que traduzam e atendam as urgências do tempo em que vivemos.

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Simplesmente genial

Por Carlos Ferrari - Atualizado em: sexta-feira, setembro 12, 2014

Encanta-me a convergência dessas duas palavras compreendidas equivocadamente por alguns como antagônicas. O genial é ‘simples’ por essência e essa peculiaridade é que coloca algumas ideias e fenômenos nesse nível de reconhecimento por determinados segmentos sociais. Assim, soluções ‘simples’ como uma bolinha no número cinco do teclado numérico de telefones ou um design tátil diferenciado em determinadas embalagens, produz para nós, cegos, um resultado de autonomia que nos faz celebrar tais implementos como simplesmente geniais.

Nunca vou me esquecer do meu assombro diante da descoberta de que as fitas cassetes em sua grande maioria – aqui tenho que abrir aspas gigantes para dizer que estou falando de uma mídia de áudio que provavelmente um percentual significativo de meus leitores jamais tenham visto ou tocado – essas belezinhas que tinham músicas ou quaisquer outros sons  gravados tanto no lado A quanto no lado B, vinham com uma marcação bem discreta com as letras A e B também em Braille. Um dia, contando isso para um amigo, o cara falou: “simplesmente genial, pois no escuro, até para quem enxerga, fica terrível saber o lado correto da fita”.

Notem que estou falando de pequenas sacadas, mas com forte impacto inclusivo. Eu poderia também buscar exemplos na mesma linha em receitas culinárias, músicas, pinturas, artes plásticas, enfim, em tudo aquilo que é produto da intervenção humana passando, a partir de então, a ser significativamente mais importante, agradável ou acessível para pessoas que venham a interagir ou que precisam daquela solução.

Mas vamos voltar para as belas ideias que podem promover grandes níveis de autonomia e acessibilidade. Esta semana após atualizar meu whatsapp, fiquei maravilhado com a nova implementação proposta pelos ‘caras’. Trata-se de um botão a mais que permite ao usuário tirar fotos de dentro do próprio mensageiro, podendo logo em seguida inserir legendas e encaminhar.

Penso que muito do sucesso desse aplicativo se deu pela possibilidade das pessoas constituírem grupos e poderem com agilidade e ‘privacidade’, compartilhar entre si ideias momentos bacanas que logo poderiam ser comentados e repercutidos de acordo com o nível de importância – ou falta dela – para os envolvidos. Contudo, até então nós, pessoas cegas, acabávamos no momento em que recebíamos as imagens ficando sem saber do que se tratava e, por muitas vezes, parecendo indelicados por não comentar algo que era compreendido como merecedor de atenção por nossos interlocutores.

É claro que já era possível inserir legendas nas fotos antes desse recurso do aplicativo, mas o trabalho seria bem mais complexo e chato de ser realizado. Agora o whatsapp deu um ponta-pé inicial para que toda aquela pessoa que encaminha uma foto o possa fazer com criatividade suficiente para que qualquer outra pessoa que a receba possa “ver, curtir e comentar”.

Fica meu convite para que experimentem a brincadeira. Mesmo não tendo amigos cegos, passem a exercitar a cultura de legendar suas fotos no whatsapp. Basta inserir uma pequena descrição e pronto, simplesmente genial, visto que enxergando ou não, todos poderão ver de verdade suas fotografias.

Depois que pegar gosto pela coisa já pode ampliar seus horizontes. Dá para legendar também no Facebook, Twitter e tantas outras redes sociais que ainda não trazem a mesma facilidade e que teriam tal medida muito bem vinda

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