Veja a cerveja e com outros olhos

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Pode parecer estranho, um tanto quanto paradoxal, mas por incrível que pareça é sempre um desafio para mim, discutir ideias, propor conceitos, ou mesmo externar pequenas opiniões, sem que tais situações tragam consigo o carimbo recorrente de que se trata de algo dito por um cego. Preciso dizer que não tenho qualquer problema com a cegueira, e ao contrário disso, busco sempre fazer da realidade concreta que me coloca como pessoa com deficiência, uma oportunidade para trabalhar melhores dias de inclusão e acessibilidade.

O que procuro sempre evitar é que a condição de cegueira se sobreponha a outras características pessoais, que acabei desenvolvendo independente da cegueira. Por exemplo, quando me apresento como professor para uma nova turma na sala de aula, não preciso falar antes da cegueira, pois trata-se de uma condição humana, e como tal não precisa ser destacada nem tão pouco omitida.

Já fui guitarrista, presidente de Conselho de Políticas Públicas, palestrante e sempre busquei pautar minha atuação partindo da premissa que a cegueira é apenas uma das tantas coisas que me fazem ser humano. Conto-lhes tudo isso, pois nesta última semana abri uma exceção para essa minha postura, ou seja, acabei permitindo que a cegueira aparecesse se sobrepondo para além do necessário. Isso aconteceu em uma entrevista que dei ao Beercast Brasil, melhor podcast do país quando o assunto é cerveja.

Se você ainda não sabe o que é um Podcast, trata-se de uma espécie de programa de rádio, com o diferencial de poder ser ouvido e baixado a qualquer momento desde que se esteja conectado na internet. Ter a oportunidade de participar do Beercast e poder falar como o primeiro cego cervejeiro do Brasil (ao menos até onde me consta) foi fundamental para que eu pudesse contribuir para desmistificar um pouco sobre as limitações das pessoas cegas e sobre as inúmeras possibilidades abertas pela cultura cervejeira.

Falar de inclusão no mundo do trabalho, na escola e ambientes públicos é relativamente simples para nós militantes com tanto tempo de caminhada. Agora contar um pouco sobre as pequenas coisas que podem nos oportunizar grandes transformações no cotidiano, é sempre um grande desafio, pois imaginem só; para muitos, em uma sociedade ainda extremamente desinformada e por vezes preconceituosa, as palavras cego e cerveja não podem estar no mesmo espaço. Não podem porque, para muitos, ser cego é estar doente, logo quem está com alguma doença não bebe. Para outros a cegueira pode elevar o ser humano a uma posição quase de super-herói ou mesmo reduzi-lo à casta dos muitos pobres coitados, logo quem é herói e/ou coitado também não pode beber.

Há fora isso, ainda vivemos em um país que a cerveja é considerada pela maioria algo banal. Uma coisa que se bebe aos montes para extravasar, festejar, e o que vale mesmo é descer pra dentro. O país agora começa a descobrir aos poucos, que falamos de uma bebida com milhares de anos, de grande influência para enormes transformações culturais, tecnológicas, econômicas e sociais, vivenciadas ao longo da história da humanidade.

Falar como cego cervejeiro, apesar de ir na contramão do que costumo praticar,  me permite abordar uma série de questões urgentes e importantes para a sociedade. Os cegos podem ser mais do que o personagem Jeremias que pedia esmolas em Roque Santeiro, podem ser menos que Stevie Wonder e seu super ouvido absoluto, podem ser sim cidadãos com hobbies e atividades pouco tradicionais.

Para vender e falar de cerveja não é necessário transformar mulheres em objetos sexuais portadores de mensagens subliminares que se propõem serem mais eficientes do que o sabor e/ou toda a experiência em ter contato com a bebida. Beber cerveja pode ser sim algo saudável e diferente do que se tem convencionado os grandes meios de comunicação e o inconsciente coletivo.

Tenho certeza que assim, muito rapidamente quem ouviu ou ouvirá o Beercast, logo perceberá como tantas outras pessoas com quem interajo que a cegueira e a cerveja podem ser enxergadas a partir de perspectivas bem mais bacanas e complexas.

Te convido a visitar o link abaixo para que possamos em meu blog e nas redes sociais continuar esta conversa. Um brinde a novas possibilidades de enxergar a vida.

Segue o link: http://www.beercast.com.br/programas/um-papo-com-carlos-ferrari-beercast-114/

Armadura de guerra e espírito de celebração

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Parece paradoxal, não? E creio que, de fato, esta seja a tônica que marca nossa militância enquanto movimento de luta pelos direitos das pessoas com deficiência nos dias atuais.

Neste dia 03 de dezembro, mais uma vez celebramos a data internacional que marca essa jornada recheada de capítulos que povoam nossa memória, reforçando essa dicotomia entre conquistas e batalhas.

Já pudemos nos abraçar para celebrar ganhos históricos, como por exemplo, a ratificação pelo Brasil de uma Convenção Internacional da ONU, elaborada a partir do protagonismo do próprio segmento, como também já nos vimos repetidas vezes,  unidos  indignados, diante de bandeiras históricas ainda não atendidas, como o aumento da per capita de um quarto do salário mínimo como condicionante de  acesso ao Benefício de Prestação Continuada, o BPC.

Vibramos  diante das possibilidades tecnológicas viabilizadas pelos atuais smartphones, assegurando total autonomia para interação com os equipamentos para cegos, paralisados cerebrais, amputados, dentre tantas outras pessoas com limitações. Ao mesmo tempo, temos que nos indignar diante da falta de consciência de empresas de pagamento que colocam no mercado suas ‘maquininhas de cartão’ com um teclado touch sem qualquer acessibilidade, ignorando e desrespeitando milhões de consumidores que, da noite para o dia, se vêem impedidos de digitar suas senhas graças à miopia mercadológica dessas corporações.

Antes que alguém possa dizer que isso é ‘coisa do mercado’, cabe lembrar que o Estado Brasileiro também é especialista em transformar coisas boas em enormes transtornos. A mesma pessoa com deficiência tem direito a reserva de vagas em concurso público, compra de veículos com isenções tributárias, reserva de vagas em estacionamentos, aposentadoria especial, dentre outros. Mas, saibam caros leitores, para cada um desses direitos que poderiam ser comemorados e facilmente acessados, existe um calvário burocrático a ser perseguido marcado pela busca por laudos, submissão a perícias equivocadas, além de uma confusão crônica que, muitas vezes, leva alguns a pensarem que tais direitos são favores ofertados graças às benesses provenientes da gestão A ou B.

Dias desses, voltando de Brasília para São Paulo, ouvi de um companheiro de poltrona um comentário que manifestava sua satisfação por ver cada vez mais pessoas com deficiência cruzando os céus do Brasil. Segundo ele, a melhoria do poder de compra, somada ao empoderamento técnico-político do segmento, podem ser fatores relevantes a serem considerados para a comprovação deste fenômeno. Concordando em partes com o amigo, coloquei água no ‘choppe’ imaginário que regava a nossa conversa pois, infelizmente, junto com a chegada deste segmento aos aeroportos e aeronaves, não  veio o respeito necessário que mereceria um público que está injetando recursos no setor. Não se trata de exceção, mas sim de casos de pessoas com deficiência esquecidas em aeronaves ou mesmo no momento do embarque, acentos de prioridades garantidos por lei sendo vendidos sem qualquer constrangimento, além de um total descaso com as especificidades que marcam cada deficiência mostrando  que aeroportos e companhias aéreas não estão nada preocupados com o segmento.

Já manifestei em outros artigos publicados neste espaço, minha postura otimista diante da nossa caminhada. Gosto muito mais de celebrar do que de botar a armadura de guerra para lutar contra as posturas preconceituosas e discriminatórias presentes em nossa sociedade.  Isto posto, temos que ter claro que não podemos mais aceitar com naturalidade argumentos como, “desculpe tenho um cardápio em Braille, mas está desatualizado”, “perdão mas não temos banheiros adaptados”.

A lei de acessibilidade tem mais de dez anos e não podemos ter vergonha de cobrar de maneira intransigente seu comprimento junto a todos os setores da sociedade.  Pessoalmente já estou elaborando minha lista das dez grandes novidades do ano que me fazem comemorar os avanços testemunhados por nosso segmento. Também estou elencando os dez pontos negativos que me fazem estar alerta diante de nossas responsabilidades enquanto militantes e cidadãos de direito.

Sustentabilidade sem acessibilidade é insustentável

Logo da acessibilidade (ABNT) cravado em um tronco de árvore.

Logo da acessibilidade (ABNT) cravado em um tronco de árvore.

O desenvolvimento sustentável enquanto alternativa concreta para evoluirmos como civilização mais saudável, justa e economicamente viável, tem se mostrado uma proposta imbatível diante de quaisquer possibilidades de argumentos contrários. Cada vez mais as pessoas vão percebendo que essa conversa deve e pode ir muito além das questões ambientais relacionadas ao clima, ao solo, às florestas, rios e à qualidade do ar.

Elementos sociais, políticos, culturais e históricos entram na pauta, fazendo com que relacionamentos, crenças, hábitos e pontos de vista sejam ressignificados, tomando por norte a construção de projetos colaborativos, a promoção da troca de conhecimento e a geração de energia a partir de esforços anteriores. Mas nem tudo são flores, visto que, muitas vezes, a paixão pelo que se defende acaba ganhando mais força do que a preocupação com o impacto real na vida das pessoas. Como dizia o nosso grande Paulo Freire, as coisas, de fato, só ganham sentido na medida em que conseguimos verdadeiramente aproximar o discurso da prática. Uma cidade pode ser aplaudida por funcionar com energia limpa, celebrada por destinar corretamente 100% de seus resíduos, porém, nada disso serve se a mesma cidade não estiver adequada para que pessoas, independente de suas limitações, possam circular e se apropriar dos espaços públicos.

Recentemente estive em um evento onde se discutia estratégias e conteúdos importantes para a pauta dos objetivos sustentáveis.  Lá não havia material em formato acessível para que cegos pudessem acompanhar as explanações, tão pouco intérpretes de LIBRAS para os surdos. Você pode dizer, “talvez tenha sido apenas um deslize“, mas vejam que isso deveria ser condição básica para dar início a uma conversa que realmente se sustente considerando o fato de que participarão pessoas com características e necessidades diferentes.

Ao fim das contas, o debate que creio que deve ser feito é sobre que mundo queremos e/ou podemos construir a partir de uma mudança de postura pessoal e coletiva. Neste sentido a sustentabilidade sem acessibilidade no centro das prioridades não se sustenta, pois exclui pessoas e, em decorrência disso, a ideia acaba perdendo aliados. É importante dizer que trago essas reflexões não apenas considerando o segmento de pessoas com deficiência. Precisamos que o mundo esteja acessível para os seus idosos, as gestantes, os pobres e ricos, ou seja, necessitamos que a convivência entre seres humanos seja sustentável considerando as múltiplas possibilidades da vida em sociedade.

Mais perdido que cego em tiroteio…

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Por mais paradoxal que possa parecer em determinados momentos, um grande tiroteio pode ser extremamente orientador para cegos se localizarem com precisão. É claro que isso não ocorre no mundo real, mas, acreditem, no virtual a mágica acontece propiciando momentos de grande emoção e adrenalina.

Vocês já devem ter percebido que o assunto da nossa conversa de hoje são games. Meu primeiro contato com essas maravilhas foi lá pelo meio dos anos oitenta. Mesmo sem enxergar, os sons e as possibilidades desafiadoras dos muitos jogos disponíveis para Atari e outros consoles similares me fascinavam, o que fez com que familiares e amigos me estimulassem a jogar, dando orientações como “mais para direita, esquerda, abaixa, atira”. Claro que meu desempenho não era nem de longe um dos melhores, mas, acreditem, dava sim para brincar e me divertir, até porque o nível de previsibilidade dos jogos permitiam que, com alguma disciplina e muito treino, podíamos jogar até de olhos fechados.

No fundo, o que valia mesmo era a paixão e o prazer de compartilhar momentos de lazer e entretenimento com a turma de minha idade. Se você achou loucura um cego jogar vídeo game, recomendo que conheça a história de Jordan Verner, um jovem cego canadense que se propôs a terminar o game “The Legend of Zelda: Ocarina of time”. O cara demorou dois anos, mobilizou uma galera na Internet e, segundo ele, o esforço valeu a pena. Segue o link de um fórum de games que debate a história:  http://romhacking.trd.br/index.php?/topic/5932-um-cego-zera-legend-of-zelda-ocarina-of-time-depois-de-2-anos/

Quase vinte anos depois de ganhar meu primeiro vídeo game, conheci os áudio games. Isso aconteceu há quase sete anos e os tais joguinhos eram realmente empolgantes. Com tecnologia de orientação pelos fones de ouvido, dava para combater naves espaciais, pilotar carros em meio a rallys e enduros, além de escalar prédios e fugir de prisões. Os jogos eram todos sem imagens e só podíamos jogar entre cegos.

Mergulhei nesse universo, ajudando a organizar o primeiro ‘Encontro Nacional de Áudio Games’, virando noites em competições virtuais e contribuindo para tradução de áudios que compunham o ambiente sonoro dos jogos. Muita gente não entendia, por exemplo, como eu participava em competições de corrida de automóveis. A ideia é relativamente simples: o condutor deve manter o som do motor de seu carro centralizado entre os dois fones de ouvido. Assim, sempre que o carro sai um pouco para direita ou para esquerda, o jogador rapidamente, por meio de um joystick ou mesmo das setas do teclado, deve trazer seu veículo de volta para o centro. Já para fazer as curvas abertas ou fechadas, existe uma orientação por voz, como por exemplo: “curva fechada à direita!”. Caso você queira conhecer mais do que estou falando e até baixar alguns jogos para experimentar, visite o www.audiogames.com.br.

Em 2011, decidi por mudar de plataforma enquanto usuário de computador, e essa saída do ambiente Windows me afastou novamente do fantástico mundo dos games.

Na última semana recebi um email falando do Nébula. Trata-se de um jogo para a plataforma IOS, ou seja, podemos jogar no Iphone ou Ipad. Diferente de tudo o que eu já havia conhecido, esse jogo traz a possibilidade de pessoas sem deficiência e cegos jogarem juntos. Isso porque, neste caso, também se tem os gráficos visuais.

Jogos textuais como o Sonora, o Perguntados e alguns outros já permitiam isso. Contudo, o inovador desta história foi a possibilidade de combate em ambientes simulados.

Ainda estou em fase de testes. Tentei um bate-papo com os desenvolvedores até fechar esta coluna, mas, infelizmente, não deu certo. Fica o convite para que você possa baixar o jogo oferecido em duas versões: uma paga, com 32 fases, e outra gratuita, onde se pode viver toda a experiência.

Reserve os fones de ouvido e bom divertimento inclusivo!

Simplesmente genial

Encanta-me a convergência dessas duas palavras compreendidas equivocadamente por alguns como antagônicas. O genial é ‘simples’ por essência e essa peculiaridade é que coloca algumas ideias e fenômenos nesse nível de reconhecimento por determinados segmentos sociais. Assim, soluções ‘simples’ como uma bolinha no número cinco do teclado numérico de telefones ou um design tátil diferenciado em determinadas embalagens, produz para nós, cegos, um resultado de autonomia que nos faz celebrar tais implementos como simplesmente geniais.

Nunca vou me esquecer do meu assombro diante da descoberta de que as fitas cassetes em sua grande maioria – aqui tenho que abrir aspas gigantes para dizer que estou falando de uma mídia de áudio que provavelmente um percentual significativo de meus leitores jamais tenham visto ou tocado – essas belezinhas que tinham músicas ou quaisquer outros sons  gravados tanto no lado A quanto no lado B, vinham com uma marcação bem discreta com as letras A e B também em Braille. Um dia, contando isso para um amigo, o cara falou: “simplesmente genial, pois no escuro, até para quem enxerga, fica terrível saber o lado correto da fita”.

Notem que estou falando de pequenas sacadas, mas com forte impacto inclusivo. Eu poderia também buscar exemplos na mesma linha em receitas culinárias, músicas, pinturas, artes plásticas, enfim, em tudo aquilo que é produto da intervenção humana passando, a partir de então, a ser significativamente mais importante, agradável ou acessível para pessoas que venham a interagir ou que precisam daquela solução.

Mas vamos voltar para as belas ideias que podem promover grandes níveis de autonomia e acessibilidade. Esta semana após atualizar meu whatsapp, fiquei maravilhado com a nova implementação proposta pelos ‘caras’. Trata-se de um botão a mais que permite ao usuário tirar fotos de dentro do próprio mensageiro, podendo logo em seguida inserir legendas e encaminhar.

Penso que muito do sucesso desse aplicativo se deu pela possibilidade das pessoas constituírem grupos e poderem com agilidade e ‘privacidade’, compartilhar entre si ideias momentos bacanas que logo poderiam ser comentados e repercutidos de acordo com o nível de importância – ou falta dela – para os envolvidos. Contudo, até então nós, pessoas cegas, acabávamos no momento em que recebíamos as imagens ficando sem saber do que se tratava e, por muitas vezes, parecendo indelicados por não comentar algo que era compreendido como merecedor de atenção por nossos interlocutores.

É claro que já era possível inserir legendas nas fotos antes desse recurso do aplicativo, mas o trabalho seria bem mais complexo e chato de ser realizado. Agora o whatsapp deu um ponta-pé inicial para que toda aquela pessoa que encaminha uma foto o possa fazer com criatividade suficiente para que qualquer outra pessoa que a receba possa “ver, curtir e comentar”.

Fica meu convite para que experimentem a brincadeira. Mesmo não tendo amigos cegos, passem a exercitar a cultura de legendar suas fotos no whatsapp. Basta inserir uma pequena descrição e pronto, simplesmente genial, visto que enxergando ou não, todos poderão ver de verdade suas fotografias.

Depois que pegar gosto pela coisa já pode ampliar seus horizontes. Dá para legendar também no Facebook, Twitter e tantas outras redes sociais que ainda não trazem a mesma facilidade e que teriam tal medida muito bem vinda

Um check in por acessibilidade

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São dias de Copa. As pessoas têm lotado bares, invadido restaurantes, além, é claro, de tomar as ruas e praças em grandes aglomerações. Nestes momentos, os smartphones têm trabalhado como nunca, já que ninguém quer deixar de fazer selfie com os amigos, ou mesmo registrar aqueles momentos surpreendentes, seja pelo lado cômico, seja pela bizarrice instaurada.

Para além dos milhares de cliques fotográficos, ou em paralelo a eles, o hábito do check in está sempre presente. Há quem faça pelo Facebook, tem quem ainda se mantenha utilizando o Foursquare, além de tantos outros que já migraram para o Swarm.

A propósito, por que será que tanta gente faz check in? Alguns aplicativos funcionam como um jogo, ou seja, se ganha mais pontos, títulos e, por consequência, melhor condição de ranking em relação aos amigos aquele que tem maior quantidade. Contudo, cada vez mais a ideia que tem prevalecido é a perspectiva de compartilhar informações sobre o local e o momento.

Por exemplo, o fulano de tal faz check in na loja “XPTO” e comenta, “excelente atendimento e ótimos preços”. Alguns estabelecimentos têm seguido a lógica americana, com campanhas do tipo, faça um check in e ganhe 10% de desconto no total da conta, um café ou até uma caipirinha.

O bacana é que um simples toque na tela do celular pode ter maiores e melhores consequências. Podemos utilizar aplicativos específicos como o Cidadela, utilizado para denunciar buracos na pista, árvores não-podadas e patrimônios públicos danificados. Nesta coluna, proponho trabalharmos com o melhor dos dois mundos, ou seja, fazermos check in em aplicativos tradicionais a partir de um olhar focado na acessibilidade.

Deixa eu dar um exemplo: você pode contar que o restaurante do Jogo da Copa que você está acompanhando no momento tem banheiro acessível ou mesmo que não tem cardápio em Braille. Essas informações podem ser muito úteis, para um usuário de cadeira de rodas que quer muito ver o jogo com os amigos e estábuscando informações sobre os locais no entorno.

Há poucos minutos, falando sobre essa ideia com dois amigos, fui perguntado: “mas e aquelas pessoas que não têm conhecimentos específicos sobre acessibilidade?”. Bem, essas são a maioria, porém creio que podem com alguns elementos se informarem com bastante qualidade sobre o nível de acessibilidade do local. Comecemos pela entrada, vale verificar se arquitetonicamente a coisa está bem, largura da porta, ausência de obstáculos como degraus, dentre outros. Depois de já acomodado e de alguns chopes, vale dar um pulo no banheiro e observar as adaptações para acessibilidade. Caso não visualize, voltando à mesa, procure dar uma especulada com o garçom. Aliás, aproveite e pergunte também se a casa tem cardápio com letras ampliadas e/ou Braille.

Depois de saber de tudo isso, é só fazer o check in, dizendo tudo o que tem ou o que não tem.

Ainda conversando com os amigos, comentei: “se a moda pega, transformamos em um curto espaço de tempo, acessibilidade em moda, ou melhor, em algo a ser perseguido e procurado, por aqueles que necessitam ou não de tais adequações”. Desta forma, tendo um direito ou mesmo a ausência dele, como pauta da sociedade como um todo, conseguimos, com um gesto simples, provocar enormes transformações.

Gostou da proposta? Então, além de compartilhar esse texto e falar sobre ele com os amigos, também multiplique a ideia em seus próximos check in. Sei que existem muitas pessoas que preferem não fazer o check in, considerando inclusive questões de segurança, para estes recomendo o check out, ou seja, faça tudo igual, mas logo depois que sair do estabelecimento.

Agora você, que ainda não tem um Smartphone, ou nunca viu esses tais aplicativos, calma…de repente, quando você menos esperar, já estará brincando com um desses super telefones quase sem botões, mas com infinitas possibilidades.

Inclusão 2.0?

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Já pensou em ir a seguidos restaurantes, porém só em alguns poucos ter acesso ao cardápio? Sim, sim, não seria nada bom. Mas imagina se nos restaurantes que houvesse cardápio, os mesmos lhe fossem trazidos sem preços atualizados. Pois é, ficou pior, mas é assim a realidade atual do cardápio em Braille naqueles locais onde se pode encontrá-los.

Virando a página. Já se imaginou como um cliente de companhias aéreas com prioridade total de atendimento? Calma, prioridade que se traduziria na seguinte regra: o Sr. deve esperar todos desembarcarem até que chegue a sua vez. Coisa de doido, mas é assim que funciona o atendimento a pessoas com deficiência em voos domésticos ou internacionais.

Neste texto, quero discutir com você sobre o fenômeno contemporâneo dos direitos conquistados e relativizados. Um exemplo bom neste sentido é aquele gestor que há anos não cumpre a Lei de Cotas para contratação de trabalhadores com deficiência. O cara afirma sem medo de escorregar, “as vagas estão abertas, porém não temos no mercado pessoas para assumir”. Há alguns dias, participando de um debate sobre inclusão, provoquei os colegas de debate, apontando a necessidade de concebermos uma versão 2.0 de nossas estratégias.

Pensar em uma inclusão 2.0 faz-se urgente para ressignificarmos os avanços já conquistados, na perspectiva de alcançarmos melhores e maiores níveis de efetividade. Voltando ao empregador que reclama da falta de pessoas com deficiência para contratar, há que se avaliar a partir de critérios técnicos consistentes, a qualidade e a viabilidade das vagas ofertadas, pois se corre o risco de se culpabilizar a vítima, no caso aqui o candidato, pela falta de parâmetros de qualidade no processo de contratação como um todo.

Ainda pensando em nosso upgrade inclusivo, devemos reafirmar que não dá mais para conviver com a cultura das carteirinhas. Na era dos certificados e assinaturas digitais, tal excrescência, coloca milhões de cidadãos com deficiência de pires na mão junto a inúmeros órgãos públicos, para acessar direitos, como se fossem favores, lhes recomendo ler meu texto, portadores de carteirinhas, em http://www.blogdoferrari.com.br/portadores-de-carteirinhas

A cultura do laudo é igualmente perversa e segue na contramão de qualquer perspectiva civilizatória. Me pego, por exemplo, para seguirmos com essa conversa. Sou tecnicamente cego desde que nasci, e salvo algum milagre de ordem sobrenatural, seguirei nesta condição até o fim de meus dias no mundo em que conhecemos. Contudo, a cada vez que penso em prestar um concurso, ou acessar um direito, devo buscar um laudo para reafirmar ao Estado minha cegueira. Pior que isso, caso eu queira comprar um automóvel na condição de não-condutor, a regra ainda é mais escabrosa, pois acreditem, tenho que levar dois laudos, assinados por um especialista do SUS, um clínico geral do SUS e o chefe da unidade do SUS.

Como se não bastasse, pessoas com deficiência de todo o país, repetidas vezes, tem vivenciado constrangimentos diante da rejeição dos médicos em expedir o laudo. Frases como ‘Eu não estou aqui para isso” ou “sua deficiência não é o caso para tanto”, são recorrentes e têm colocado agora mais um ponto de parada obrigatória na novela dos laudos, ou seja, as ouvidorias.

Implementar uma inclusão 2.0 é tarefa grande e de todos nós. Muitos lutaram para que tivéssemos asseguradas condições que hoje já não são as ideais, logo, agora creio que seja a nossa vez de buscarmos o novo, que com certeza um dia para os que seguem já se configurará como obsoleto.

Os meus onze campeões

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Nem precisa ser época de Copa. Somos e estamos no país do futebol. Logo, por aqui todo mundo acaba, em algum momento, dando “pitacos” ou mesmo montando suas seleções. Já pensaram se em algum ponto do presente, passado ou futuro tivéssemos a Copa do Mundo da acessibilidade e inclusão?

Com certeza, os palpites sobre os possíveis vencedores não faltariam, e brincando um pouco com essa possibilidade, decidi montar aquele que, para mim, seria o dream time da modalidade.

No gol, meu titular absoluto seria o compromisso, pois creio que não dá para começar sequer a bater bola neste campo se não pudermos contar com um craque desta categoria. Soltos pelas laterais, jogando avançados com toda liberdade para atacar, eu escalaria a criatividade e a ousadia. Boa parte das ajudas técnicas e das soluções que hoje viabilizam a autonomia e a independência de pessoas com deficiência e/ou mobilidade reduzida nasceram nos últimos cinquenta anos. Assim, a criatividade fez e faz com que pudéssemos encontrar, em pequenas coisas, grandes possibilidades. Já a ousadia tem nos permitido fazer enormes transformações diante do que, até algum momento, nos parecia impossível.

Na zaga, defendendo tais direitos com ímpeto de vencedores, meus dois xerifões seriam o desejo e a escuta. Para se promover acessibilidade e inclusão tem que se querer muito! Na mesma medida, há que se buscar na fala de quem necessita de indicativos para concepção de boas soluções e só assim decidirmos avançar com segurança.

Para o meio, eu botaria em campo uma linha de três. O conhecimento, o investimento e a sensibilidade dariam a consistência necessária para o que eu chamo de uma empreitada de sucesso. Não promoveremos acessibilidade e inclusão apenas com discursos. Temos que buscar todo o conhecimento que tem sido produzido ao longo do tempo, investir em pesquisas e ter a sensibilidade de trabalhar com foco nas necessidades de cada segmento.

Sem titubear, buscando golear adversários difíceis e não correr qualquer risco de ficar sem o caneco, eu trabalharia com três atacantes. Abertos pelas pontas, em plena sintonia com nossos laterais, estariam a informação e o engajamento. Há defesa que aguenta uma dupla dessas?

E ali na área, esperando para mandar para as redes estaria nosso super artilheiro, o bola de ouro da turma, exatamente esse que você pensou: o respeito.

A boa informação vence qualquer preconceito, o engajamento transforma o compromisso em ação efetiva, e o respeito, esse faz com que transformemos boas normas escritas em belas práticas do cotidiano.

Omoby: simplesmente revolucionário

Quem já leu meu livro, conheceu a experiência de uma pessoa cega diante da dificuldade de diferenciar produtos com embalagens tatilmente iguais. É o caso de latas de cervejas e refrigerantes, caixas de sucos, leites e outras bebidas, além de shampoos e condicionadores, e um cem número de outras coisas que não caberiam neste texto.

O desrespeito do mercado com a acessibilidade, ou seja, com a criação de condições para que todas as pessoas independente de uma limitação física ou sensorial possam ter acesso a seus produtos, mostra uma postura preconceituosa e incoerente, visto que falamos de milhões de consumidores economicamente aptos para o consumo, e em tese alvo de disputas de estratégias  de marketing, sabe-se lá porque inexistentes.

Hoje felizmente, quero falar de coisas boas.  O mercado acaba nos surpreendendo e em meio a tantos problemas podemos comemorar o surgimento de uma série de aplicativos inteligentes e acessíveis para pessoas cegas, para uso em um Iphone. O produto ainda é muito caro, e confesso até que fiquei um tanto quanto receioso de citar aqui uma marca ou modelo de equipamento, visto que este espaço não tem nenhuma pretensão de fazer propaganda, ou divulgação de marca específica.

Testando os aplicativos porém, cheguei a conclusão que trata-se de utilidade pública e não poderia deixar de compartilhar.

Vamos a alguns deles. O primeiro é o Ariadine que chega ao usuário ao custo de aproximadamente R$5 reais. Trata-se de uma aplicação simples que permite com que as pessoas cegas possam caminhar sendo orientadas pelo fone de ouvido de sua localização. Além do nome da rua o programa fala a altura do número e vai mencionando o nome das ruas que cruzam o caminho. O usuário também pode varrer com o dedo em um mapa que mostra as localizações ao redor, permitindo seu planejamento de rota, antes de iniciar a caminhada.

Outro software importante é o light detector. Ao ser acionado o aplicativo começa a emitir um som que pode ficar mais grave ou agudo dependendo da luminosidade. Com isso o usuário, não corre o risco de esquecer luzes  acesas, ou mesmo ficar no escuro involuntariamente. Essa aplicação é particularmente importante para pessoas cegas que moram sós, e muitas vezes acabam não tendo controle dessa variável. O aplicativo tem o custo de U$0.99 mais impostos, o que também deve dar por volta de R$ 5,00.

Por fim quero falar do omoby. O programinha gratuito, permite a pessoa cega fotografar qualquer coisa, e logo depois automaticamente a informação é remetida a um banco de dados. Em poucos segundos o usuário é informado do que se trata, resolvendo o velho problema de embalagens que mencionei no início dessa coluna. O programa ainda reconhece notas de dinheiro, cores, e com certeza uma infinidade de coisas que ainda não conseguimos testar.

A tecnologia tem ainda muito para nos surpreender, e por hora deixo essas dicas para que possam ser usadas e compartilhadas!

Muito que comemorar

A cada ano, o dia vinte e um de setembro ganha mais espaço na agenda política brasileira. Trata-se do Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência, e ano a ano, junto com as lutas que tomam sempre novo significado, na medida em que avançamos, também podemos comemorar novas conquistas.

Neste 2011, sem dúvidas o saldo positivo é bastante significativo e por isso, busquei para o dia de hoje elencar alguns pontos que merecem ser celebrados, e mais do que isso,  lembrados como marco histórico de nossa   caminhada.

Inicio destacando a sanção presidencial das leis, 12435/11 e 12470/11.  A primeira trata do reconhecimento legal, e da instituição do Sistema Único da Assistência Social, SUAS. Falamos então do reconhecimento pelo estado brasileiro de uma rede de acesso a direitos, composta por equipamentos estatais e não governamentais, articulados na perspectiva de acolher e empoderar aqueles ainda em condição de vulnerabilidade social, e/ou pobreza extrema. A segunda, trata da ressignificação do Benefício de Prestação Continuada BPC. Esse que por muito tempo foi entendido equivocadamente como uma aposentadoria automática, apenas pelo fato da pessoa ter alguma deficiência, agora teve seu verdadeiro significado resgatado por lei. O benefício não é mais suspenso, quando o individuo passa a trabalhar, passa a ser apenas cessado, e pode ser retomado de imediato no momento em que a pessoa sai do emprego. A mesma lei ainda assegura que esse benefício possa ser acumulado com a remuneração de aprendiz, caso o sujeito opte pela inserção nessa modalidade.

As duas leis mencionadas acima tem ainda o reforço do BPC Trabalho. Trata-se de um piloto do governo federal em parceria com a FENAVAPE, Federação Nacional das Pessoas com Deficiência, que articula, a expertise das afiliadas da federação, e toda a capacidade estatal em identificar os usuários do benefício, e articular ofertas das demais políticas que possam ser compreendidas como fundamentais para seu processo de habilitação e reabilitação.

Ainda em âmbito nacional pudemos finalmente este ano, ver a Televisão Brasileira dar os primeiros passos para implementação da áudio-descrição, recurso que permite pessoas cegas acompanhar com autonomia toda a programação ofertada com esse recurso. Trata-se de um serviço que pode ser ativado pelo usuário por meio da tecla SAP, nesse momento ele passa a receber informações sobre tudo o que ocorre para além dos diálogos, cenas puramente visuais.

Já no estado de São Paulo podemos destacar a forte articulação da Secretaria Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Neste sentido o estado avançou assegurando em lei a construção de 100% de casas populares com acessibilidade, a produção de livros didáticos totalmente acessíveis, além de realizar o maior evento paraolímpico para jovens do mundo.

Neste ano foram mais de mil atletas envolvidos com uma infra-estrutura de primeiro mundo, e grande cobertura midiática. Posso dizer com alegria que o espaço é pequeno para contar o grande conjunto de novidades que testemunhamos, fruto de anos de luta.