Veja a cerveja e com outros olhos

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Pode parecer estranho, um tanto quanto paradoxal, mas por incrível que pareça é sempre um desafio para mim, discutir ideias, propor conceitos, ou mesmo externar pequenas opiniões, sem que tais situações tragam consigo o carimbo recorrente de que se trata de algo dito por um cego. Preciso dizer que não tenho qualquer problema com a cegueira, e ao contrário disso, busco sempre fazer da realidade concreta que me coloca como pessoa com deficiência, uma oportunidade para trabalhar melhores dias de inclusão e acessibilidade.

O que procuro sempre evitar é que a condição de cegueira se sobreponha a outras características pessoais, que acabei desenvolvendo independente da cegueira. Por exemplo, quando me apresento como professor para uma nova turma na sala de aula, não preciso falar antes da cegueira, pois trata-se de uma condição humana, e como tal não precisa ser destacada nem tão pouco omitida.

Já fui guitarrista, presidente de Conselho de Políticas Públicas, palestrante e sempre busquei pautar minha atuação partindo da premissa que a cegueira é apenas uma das tantas coisas que me fazem ser humano. Conto-lhes tudo isso, pois nesta última semana abri uma exceção para essa minha postura, ou seja, acabei permitindo que a cegueira aparecesse se sobrepondo para além do necessário. Isso aconteceu em uma entrevista que dei ao Beercast Brasil, melhor podcast do país quando o assunto é cerveja.

Se você ainda não sabe o que é um Podcast, trata-se de uma espécie de programa de rádio, com o diferencial de poder ser ouvido e baixado a qualquer momento desde que se esteja conectado na internet. Ter a oportunidade de participar do Beercast e poder falar como o primeiro cego cervejeiro do Brasil (ao menos até onde me consta) foi fundamental para que eu pudesse contribuir para desmistificar um pouco sobre as limitações das pessoas cegas e sobre as inúmeras possibilidades abertas pela cultura cervejeira.

Falar de inclusão no mundo do trabalho, na escola e ambientes públicos é relativamente simples para nós militantes com tanto tempo de caminhada. Agora contar um pouco sobre as pequenas coisas que podem nos oportunizar grandes transformações no cotidiano, é sempre um grande desafio, pois imaginem só; para muitos, em uma sociedade ainda extremamente desinformada e por vezes preconceituosa, as palavras cego e cerveja não podem estar no mesmo espaço. Não podem porque, para muitos, ser cego é estar doente, logo quem está com alguma doença não bebe. Para outros a cegueira pode elevar o ser humano a uma posição quase de super-herói ou mesmo reduzi-lo à casta dos muitos pobres coitados, logo quem é herói e/ou coitado também não pode beber.

Há fora isso, ainda vivemos em um país que a cerveja é considerada pela maioria algo banal. Uma coisa que se bebe aos montes para extravasar, festejar, e o que vale mesmo é descer pra dentro. O país agora começa a descobrir aos poucos, que falamos de uma bebida com milhares de anos, de grande influência para enormes transformações culturais, tecnológicas, econômicas e sociais, vivenciadas ao longo da história da humanidade.

Falar como cego cervejeiro, apesar de ir na contramão do que costumo praticar,  me permite abordar uma série de questões urgentes e importantes para a sociedade. Os cegos podem ser mais do que o personagem Jeremias que pedia esmolas em Roque Santeiro, podem ser menos que Stevie Wonder e seu super ouvido absoluto, podem ser sim cidadãos com hobbies e atividades pouco tradicionais.

Para vender e falar de cerveja não é necessário transformar mulheres em objetos sexuais portadores de mensagens subliminares que se propõem serem mais eficientes do que o sabor e/ou toda a experiência em ter contato com a bebida. Beber cerveja pode ser sim algo saudável e diferente do que se tem convencionado os grandes meios de comunicação e o inconsciente coletivo.

Tenho certeza que assim, muito rapidamente quem ouviu ou ouvirá o Beercast, logo perceberá como tantas outras pessoas com quem interajo que a cegueira e a cerveja podem ser enxergadas a partir de perspectivas bem mais bacanas e complexas.

Te convido a visitar o link abaixo para que possamos em meu blog e nas redes sociais continuar esta conversa. Um brinde a novas possibilidades de enxergar a vida.

Segue o link: http://www.beercast.com.br/programas/um-papo-com-carlos-ferrari-beercast-114/

Meu professor é cego

Disse ela que o assunto entrou lá pelo meio do almoço de domingo. A conversa era sobre ensino, e a família – apesar de ter na jovem a primeira da história a ingressar em um curso superior –, agora também cogitava a possibilidade de Osnildo, o primo de mesma idade, seguir o mesmo caminho.

Quem me conhece pessoalmente sabe que corro dessa história de ser “exemplo de vida”. Esse é um adjetivo que nós, com alguma deficiência, recebemos carinhosamente das pessoas, por acreditarem ser algo grandioso em nossas conquistas, tendo em vista a realidade concreta, fruto de nossas limitações. Bem, muitas delas realmente são. Porém, digo que não sou muito afeito a tais elogios, visto que creio não ter feito mais do que a obrigação, dado o apoio que recebi de meus pais, e talvez até menos do que deveria para viver em uma sociedade estruturada a partir de valores que exaltam a competitividade e a busca pela “perfeição”.

Mas tenho que dizer que o papo do almoço relatado por minha aluna, uns dois semestres atrás, no fim de uma aula sobre “Fundamentos de Gestão de Pessoas” já com a sala vazia, me fez pensar um pouco sobre essa ideia de ser exemplo.

Não tenho dúvidas: nós, que assumimos alguma função pública, ou mesmo um cargo de liderança, acabamos sendo referência, verdadeiros espelhos para aqueles que admiram não necessariamente a nossa pessoa, mas muitas vezes a função que exercemos.

Na macarronada de minha aluna, a notícia de que havia na Universidade um professor cego rendeu para lá da sobremesa. “Mas como o cara faz para falar?; Para saber quem está lá? Perguntava, indignado e confuso, o tio mais velho da garota, que já não gostava muito dessa ideia dela fazer um curso que ele já disse várias vezes que não  entendia para que servia. Fiquei verdadeiramente emocionado com a percepção da menina sobre meu jeito de trabalhar: “para ensinar, não precisa ver. Ele conta casos práticos, coisas que acontecem nas empresas e no dia a dia. Conversamos muito, e com um computador que fala, ele consegue trabalhar todo o conteúdo da disciplina, sem qualquer dificuldade”.

Sem saber, minha aluna estava falando com a família sobre tecnologia assistiva, inclusão social, quebra de paradigmas, novas possibilidades de ensino e aprendizagem. Descobri com ela,  que mesmo nunca tendo abordado esses conteúdos em sala, ser um professor cego é sim um diferencial que acaba me permitindo levar, mesmo que de forma  silenciosa, essas temáticas para reflexão dos alunos.

 

Osnildo, depois do macarrão, do pudim de leite, e do bate-papo sobre o professor da prima, decidiu estudar pedagogia, pois já pensava em trabalhar com crianças com  deficiência, mas até um pouco antes desse momento, ainda tinha um pouco de medo.

Decidi contar essa história depois de algum tempo, pois acredito que todos nós podemos fazer, de nossas histórias, bons exemplos, para que tantas outras possam ser escritas e reescritas.