O que tem ali?

SCFV

Em meio a correria do cotidiano, o retorno para casa e o bate-papo sem pressa de Paula e Cristina, tornavam leve os mais de trinta minutos de caminhada entre a grande fábrica de peças automotivas onde as duas trabalhavam e o bairro tido por muitos como distante, porém para as amigas o mais perto possível daquilo que muitos chamam de aconchego do lar. Após tomar uma água de coco na barraca do Zeca, as duas ganharam fôlego e seguiram a passos largos continuando a conversa iniciada ainda no trabalho sobre o futuro dos filhos, vez ou outra sendo interrompida por cenas e promoções que saltavam aos olhos mesmo que não quisessem. Paula contava que a filha Ana pudesse seguir carreira na saúde, pois ela própria sempre sonhou com o mundo da enfermagem. Cristina queria ver o filho estudando, não importava o que fosse, ela repetia sempre que esse seria o único caminho para que o moleque pudesse ter uma vida melhor e mais tranquila do que a dela e do marido. Depois de cruzar o calçadão repleto de lojas com atrativos, que a todo tempo se transformavam em pequenas paradas das amigas para especular os preços. Paula e Cristina viraram à direita, e seguiram rumo a Av. Loas. Tratava-se de uma grande via, com uma subida difícil de vencer, mas que valia a pena ser percorrida, pois levava até a praça da cidadania, um espaço arejado, repleto de árvores, pássaros e pessoas que reconheciam naquele lugar o melhor ponto de encontro da comunidade.

Na altura do número 1993, Cristina mostrou para a amiga um prédio laranja com várias crianças, jovens e familiares chegando e saindo. “Olha lá, o Scolari vem sempre aí”. Por mais que fosse comum, Paula sempre ficava incomodada quando ouvia o nome do afilhado, preferia chamar o guri pelo apelido de Larinho, para evitar ainda mais bulling e constrangimentos. A mãe e o pai apaixonados por futebol, decidiram homenagear o técnico da seleção brasileira campeã de 2002 ano que o garoto nasceu. Como Luis Felipe ficaria muito óbvio segundo Paula, o maridão Augusto decidiu inovar, foi então que optaram por Scolari, mas aproveitaram para também reverenciar o Fenômeno: Scolari Ronaldo de Souza – uma pena não terem previsto os 7 a 1, doze anos depois.

“O  que que tem ali Cristina?”

“O nome é serviço de convivência e fortalecimento de vínculos! Nossa, demorei para guardar isso menina, e foi o povo lá do CRAS que recomendou no dia que fui lá para conversar sobre o Larinho”. Cristina continuou: “Depois que ele começou a vir aí, eu também já fiz essa pergunta algumas vezes e cada vez, é uma resposta”. Paula surpresa questionou, “eita, como assim?”

Cristina respondeu: “pois é, quando perguntei pela primeira vez, ele disse que era respeito, pois estavam fazendo uma conversa sobre os nomes de cada menina e menino”.Nossa, como assim? perguntou Paula. “Pois é, conversaram entre eles, saíram para assuntar nos comércios da região, foram até na igreja e no centro do Pai Lorival”. O Scolari disse que mesmo reconhecendo que era diferente todo mundo passou a respeitar o nome dele.”

– “Uai Cristina, ainda não entendi, o que realmente ele vai fazer lá, fica só falando de nome? ” “Imagina, diz ele que lá também tem desenvolvimento da autonomia. Você acredita, que eles vão conversar com os vereadores, já foram na associação comercial, e estão fazendo com nós das famílias, umas conversas bacanas sobre nossos direitos…  Os meninos estão ensinando a gente comadre! ”

Cristina de repente parou de caminhar, olhou reflexiva para o prédio laranja que a essas alturas já havia ficado um pouco para trás e falou um pouco mais baixo, “acho que agora eu já sei o que é que tem ali!

– Então me diga mulher! disse Paula sorridente, já imaginando procurar o CRAS para ver se Ana também poderia começar a frequentar o tal serviço de…….., e já não lembrava mais o nome completo.

“Ali tem vida comadre! Os meninos aprendem jogar bola lá na quadra do clube do bairro, tão começando a tocar um instrumento com a banda da igreja, estudam muito na escola, e chegando ali, vivem e aprendem a viver. O bom é que fazem isso tudo com as famílias e a comunidade”.

Paula ficou em silêncio por alguns minutos e quando estavam chegando na praça decidiram sentar para tomar um ar. A mãe da Ana retomou a conversa meio afirmando meio perguntando, –  “caramba comadre, que coisa boa se tivesse esse tal serviço no nosso tempo “. – “É verdade minha amiga, acho que muitos amigos não seriam perdidos por besteira, uns preconceitos sem sentido, brincadeiras maldosas, umas ideias velhas que a turma só ficava repetindo, sem contar os lugares e as pessoas que a gente poderia ter visto com o olhar de criança, sem precisar crescer para chegar até lá. O Scolari, uma vez disse para o pai que descobriu lá no serviço, que a cidade é feita para todos, e que não tem lugar para rico, lugar de pobre. Lá no serviço, tem meninos de toda a condição social, vai até criança com deficiência, é impressionante. Eles foram até no teatro, e agora tão até querendo fazer uma peça”.

Paula levantou, e convocou a amiga: –  “Então vamos seguir para casa.  Quero ainda hoje ir lá no CRAS para matricular a Aninha nesse lugar. Minha menina merece viver e conviver mais e melhor.”

Dos boatos aos bits e bytes

Se você não tem lá muita familiaridade com o mundo da informática já deve ter se perguntado, “o que são afinal esses tais de bits e bytes?”. Muitos outros já íntimos das novas tecnologias, também com certeza não devem ter muito claro o que de fato esses nominhos parecidos se propõem a batizar. Como aqui não se trata de uma coluna de informática, não serei eu quem lhe dará essa resposta com clareza. Posso porém dizer que é através da combinação de milhares de bits e bytes, que são armazenados e  disseminados dados e informações por toda a Internet. Assim, buscando me utilizar de uma linguagem figurativa, posso afirmar, serem  eles a matéria prima que nos permite  dar vida a tudo o que trabalhamos  no mundo digital.

Toda essa conversa inicial trata-se  de um bom aperitivo para discutir com vocês a democratização do fluxo de informações viabilizada pelas novas ferramentas pós-internet, e as infinitas possibilidades de  exercício de cidadania que podem ser pensadas a partir dessa oportunidade. Há pouco menos de duas décadas, fofocas, boatos e histórias mal contadas incomodavam aos envolvidos, dando um grande trabalho para que se pudesse  desconstruir tal “mal entendido”. O que dava mobilidade as informações eram as mídias escritas, faladas, televisivas, além é claro do  bom e sempre atual boca a boca. Isto significa que o fluxo de quase tudo o que se buscava comunicar em geral era de mão única, ou seja, alguém publicava, e tantos outros recebiam.

O momento atual, no entanto, trás como grande diferencial a via de mão dupla. Com o surgimento das redes sociais, e a popularização do acesso à Internet, a interatividade consolidou-se como maior característica desse novo mundo “real/virtual”.

Na prática isso significa dizer que tão poderosa quanto a estratégia de uma empresa alicerçada por milhões de investimento para divulgação de um produto, pode ser a mobilização em rede de milhares de clientes insatisfeitos. Manifestando-se pelo twitter, facebook, orkut, e tantos outros espaços, suas idéias ganham  força e  por muitas vezes acabam tomando uma proporção maior do que qualquer ação de marketing planejada. Vimos nos últimos anos  pequenos negócios, novos artistas, jovens escritores, conquistando  grande visibilidade, tendo por mola propulsora o reconhecimento de suas qualidades por internautas empenhados em compartilhar aquilo que gostaram. Também vimos grandes ditaduras, e marcas poderosas  sendo abaladas e até desconstruídas, pela insatisfação de milhões de pessoas que decidiram simplesmente dizer isso por meio de aplicativos simples instalados em seus celulares, notebooks e em seus computadores de casa e do trabalho.

As pessoas ainda não perceberam o quanto podem a  partir das redes  sociais. Muitas vezes se articulam de forma intuitiva e mesmo assim acabam atingindo enorme sucesso. Podemos sem dúvidas ir muito além,  potencializando nossas redes e planejando nossas ações. O  exercício da cidadania não se trata de algo pronto e acabado. Sempre podemos e devemos, encontrar novas formas de lutar por direitos e buscar maior equiparação de oportunidades.

Eu estive lá

Com certeza todos vocês já viveram um momento, estiveram em algum lugar, protagonizaram algumas situações, que lhe fazem pensar e afirmar com orgulho “eu estive lá”.

Foi esse sentimento que vivenciei no último sábado a noite. É importante dizer que acabamos valorizando aquilo que se alinha com nossa história, ou seja, que reforça, aqueles valores que constituímos desde a infância, seja em virtude dos suportes e aprendizados que recebemos por parte da família e  amigos, seja por conta de nossas paixões, essas frutos de sentimentos inexplicáveis que fazem com que nossa alma sorria diante de fenômenos simples, porém para nós, únicos.

Minha relação com o esporte paraolímpico é fruto de uma dessas paixões sem explicação, mas extremamente prazerosa que se renova a cada oportunidade de acompanhar uma competição. No sábado, o que ocorreu foi a abertura das terceiras paraolimpíadas escolares. Imaginem mais de 1000 jovens com diferentes tipos de deficiências, oriundos de vinte e cinco estados brasileiros, prontos para superar todos os limites em suas modalidades esportivas.

Ali a cidadania e a equiparação de oportunidades, foram o casal da noite. Ninguém estava preocupado se determinada pessoa tinha deficiência A ou B. As conversas eram todas no sentido de se buscar a melhoria do tempo, o melhor golpe dentre os adversários do peso ou mesmo a artilharia no campeonato.

A banda para os que não puderam ver era composta por quatro cegos, e fez com que todos dançassem, cada um à sua forma, antes, durante e depois do evento.

Costumo dizer que o esporte paraolímpico produz a magia da inclusão às avessas. O ídolo então não necessariamente é o mais forte, o perfeito, o inquestionável, se é que essas figuras realmente existam. Assim, pudemos viver no Brasil momentos em que toda a população pode vibrar com as medalhas de Antonio Tenório, o tetracampeão de Judô cego, que não precisou enxergar para ser exemplo, para milhares de crianças das mais diversas classes sociais.

Nesse dia trinta de agosto, será o encerramento do evento. Conheceremos os estados vencedores, e mais uma vez o ambiente de festa tomará conta da competição. Muitos atletas, aliás, a maioria não estará entre o hall dos principais vencedores. Todos, no entanto, sairão de lá com a sensação clara de missão comprida.

É fato que ninguém gosta de perder, e que esse sentimento no esporte é ainda mais reforçado. A diferença nesse caso, é que todos os envolvidos tem a clareza de sua contribuição, para que no final das contas o vencedor principal seja a sociedade como um todo. Uma sociedade mais justa, menos preconceituosa, mais respeitosa e menos excludente. Uma sociedade verdadeiramente campeã.

Máquina do futuro

É assim que por meio de uma ação publicitária, o Tribunal Superior Eleitoral, TSE, tem chamado as urnas eletrônicas, meio pelo qual manifestaremos nossa vontade política no próximo domingo. Para nós cegos, podemos afirmar que essa sem dúvidas é uma conquista do presente. Nos últimos dezesseis anos a tecnologia para o aprimoramento da acessibilidade nas eleições tem sido marcada por avanços significativos, e hoje todo brasileiro ao votar toca em uma tecla com a sinalização em Braille.

A comunicação sonora provida via fone de ouvido conectado na urna na hora do voto, também foi mais uma revolução, nos permitindo total autonomia e certeza de que todo o processo se deu sem erros de operação. Lembro bem das guias em Braille para cédulas de papel. Tratava-se de um gabarito, algo tipo uma máscara, preparada para se colocar em cima da cédula, permitindo aos eleitores cegos saberem quem estava nos quadradinhos para assim poder votar.

Há pouco tempo, menos de duas décadas íamos a locais específicos, o que era indicado para que pessoas com deficiência pudessem votar com total tranqüilidade. Não dá para negar que se tratava às vezes de uma situação bacana. Encontrávamos amigos de há muito, e a festa democrática tinha o seu brilho guardada às limitações tecnológicas e culturais do momento.

Hoje voto perto de casa e os pretextos e oportunidades para encontrar os amigos são outros bem mais legítimos e agradáveis. A eleição tem sido uma prova clara de que o desenho universal pode ser algo promovido sem que alguém tenha qualquer perda ou dano.

Nesta corrente, o Brasil que ainda não entende a importância das associações e movimentos, aquele país que muitas vezes ainda insistia em questionar a exeqüibilidade da garantia de direitos, a cada eleição vive uma aula prática de exercício da cidadania.

Nesse texto então não entro no mérito de qual cor possa ser melhor para a pátria, vermelho ou azul. Celebro aqui o fato de que ambos podem se posicionar livremente apresentando suas propostas e muitas vezes questionando os opositores. Muito menos permito-me tratar da questão de gênero. Neste sentido a realidade fala por si só, e quem sempre ganha é a pátria mãe gentil.

Caminhamos a passos largos para nos consolidar enquanto democracia referência para todo o planeta. Celebrar essa situação e fazer desse texto um meio de multiplicação dessa certeza é hoje o maior objetivo dessa coluna. Quem já comprou um congelado ou remédio com embalagem em Braille, se diverte tocando os pontinhos, e percebe ali um novo segmento sendo contemplado.

Nas urnas o fenômeno se repete e para quem ainda não prestou atenção, fica o convite. No próximo domingo ao digitar qualquer que seja o número, todos os brasileiros poderão voltar orgulhosos para casa por ter operado um equipamento acessível, preparado para qualquer cidadão independente de sua limitação.

Lado B

Quem já passou dos 30 certamente lembra dos bailinhos ou festas de família animados pelo som da velha vitrola. O ponto alto sempre se dava ao som de músicas que marcavam as paradas de sucesso e por conta disso abriam os charmosos Long Plays. Sempre estavam no lado A, e por vezes a empolgação era tanta que ninguém queria virar o disco, repetindo-se então até a exaustão o lado das músicas prediletas.

A revolução tecnológica transformou os discos de vinil em peças de museu, mandando as músicas para os CDS, e depois as transformando em bits, permitindo a qualquer pessoa salvá-las em cartões de memória, pen drivers, ou qualquer outro meio de armazenamento digital, podendo ser executadas aleatoriamente sem qualquer ordem pré-estabelecida.

Nunca tive dúvidas que nossa luta por direitos da pessoa com deficiência e tantos outros segmentos entendidos como minoritários, sempre foi encarada como o lado B no rol do repertório de prioridades de políticos, empresários e porque não dizer da sociedade como um todo. Fazer o necessário para depois resolver o problema sempre foi o que deu o tom dos discursos e das ações, nos colocando em posição de espera para quem sabe um dia ver a sociedade virar o disco.

Os movimentos amadureceram, se emponderaram ganhando maior espaço, força e voz. Fazendo uma analogia não vejo, porém, ainda como na lógica dos CDs e outros meios digitais, onde se quebrou o paradigma e atualmente se ouve músicas de forma aleatória, valorizando o trabalho de compositores e músicos como um todo, nossas demandas sendo ouvidas e pautadas na mesma perspectiva que aquelas tradicionalmente eleitas como mais importantes, garantindo assim nossa participação efetiva em uma sociedade que privilegie um debate voltado a equiparação de direitos e igualdade de acesso as oportunidades.

Crescimento econômico e social conjugados, desenvolvimento infra-estrutural pautado, a partir do desenho universal, estado forte alicerçado por ações de uma sociedade civil articulada e organizada, são propostas que a muito só tomavam forma a partir de lados distintos. Hoje, no entanto, essas bandeiras se apresentam como viáveis apenas se implementadas e defendidas em conjunto.

Em época de eleição é hora de trabalharmos para que nossas lutas históricas saiam do lado B. Na festa da cidadania onde as principais características do público convidado são a diversidade e o respeito às diferenças, lado A e lado B dão o ritmo da dança, numa multiplicidade harmônica de uma canção cantada e tocada por todos, eleita por aclamação como o grande sucesso do momento e da história. Seu nome está na boca do povo, independente de credo, raça ou classe social. Qual é a música? Ganhou quem disse com orgulho. A resposta é fácil e não poderia ser outra, trata-se da democracia.

Dia de luta

O dia 21 de setembro costumamos dizer que não é o Dia Nacional de Luta pelos Direitos da Pessoa com Deficiência, já que esse é todo dia, mas sim o dia em que paramos para celebrar todas as conquistas,  identificar os desafios e dar as mãos para mostrar juntos; familiares, pessoas com deficiência, profissionais da área, amigos e tantos outros, o quanto  que ainda precisamos caminhar. Curiosamente foi nessa semana que vivi uma das maiores violências de direito por mim já enfrentadas.

Sem medo de errar posso dizer que dia 17 de setembro desse ano, foi o dia mais especial de minha vida até aqui. Tudo começou bem cedo, visto que o grande momento estava agendado para as sete da manhã. Orações, abraços e um pouco de um monte de outras coisas foram acontecendo até as exatas sete horas e vinte e dois minutos, momento em que parece que o mundo inteiro parou para contemplar a chegada da doce e linda Catarina, nossa primeira filha.

Acompanhar o parto dentre tantas emoções, foi um momento daqueles que reservam espaço VIP na memória. O hospital e maternidade, referência para todo o ABC, me encheu de orgulho por ser de Santo André. Equipe, atenciosa e de profissionalismo inquestionável, para além de tudo o que já faziam com maestria, todo tempo se preocupou com a acessibilidade, descrevendo para mim os momentos e destacando pessoas para dar suporte durante todo o processo, incluindo a ida até o centro obstétrico, até o retorno de encontro às vovós ansiosas por notícias.

Às quinze horas então seria mais um momento único a ser registrado. A hora da emissão do primeiro documento, a certidão de nascimento, daquela que tenho certeza será uma grande cidadã. Fiquei feliz com a notícia de que esse serviço era oferecido na própria maternidade, visto que isso me permitiria ficar mais tempo acompanhando minha esposa ainda sob os efeitos de uma cesárea e minha menina, em suas primeiras horas de vida.

Dirigi-me até o posto avançado do cartório, acompanhado de minha mãe e de um primo, sabendo que pessoas cegas sempre que vão se utilizar desses serviços precisam fazê-lo com duas testemunhas. A alegria era tanta que isso naquele momento ao contrário de tantas outras vezes, nem me incomodava tanto.

Chegando lá, porém, me foi dito que eu não poderia assinar o termo de registro. Quem poderia reverter essa ordem era exclusivamente alguém que o atendente Marcelo, muito educado por sinal chamava de oficial. Segundo ele, era o único que tinha poder para tal.

Pedi então um documento que dissesse o motivo dessa proibição, e de novo recebi a informação de que o oficial apenas poderia tratar disso. Pedi então para que o atencioso rapaz ligasse para o tal homem detentores de tantos poderes para além da constituição. A resposta veio em alguns minutos acompanhada de uma pergunta: “sua esposa enxerga”? Após a afirmativa ele me disse que ela então poderia assinar o termo de registro.

Em meio aos efeitos da anestesia, enjoada e enojada por tanta agressão à cidadania, minha esposa nos recebeu no quarto, para que respeitássemos a alternativa posta pelo poderoso oficial. Se não fosse assim teríamos que ir até ele, afinal como pode-se ver não tínhamos alternativa.

Catarina hoje está devidamente registrada. É uma cidadã e será educada para ter em sua certidão de nascimento uma bandeira para combater atitudes como as que nortearam a emissão daquele documento.

Eu nesse espaço assumo o compromisso público de continuar lutando, e em breve espero trazer notícias de que outros Andreenses definitivamente estarão livres desse tipo de violência aos seus direitos.

Em tempos de cidadania, o crack é o pior do time!

Não faz muito tempo, a gente ficava assustado se ouvisse falar que alguém era maconheiro. Esse era um personagem que compunha o imaginário coletivo, e sendo assim, a ele se atribuía várias histórias, rótulos e comportamentos. Ninguém queria estar perto ou ter sua imagem vinculada a qualquer um daqueles que fosse identificado como tal, exceto aqueles que decidissem transgredir as regras sociais, assumindo assim para si e para o todo uma postura “marginal”.

Hoje, no entanto, a coisa é bem diferente, e já tem na TV, ídolo nacional dizendo que “continua queimando tudo até a última ponta”. Há quem diga que tudo isso é produto da evolução da sociedade, há também quem afirme que isso é fruto da banalização dos valores e dos meios de comunicação. Seja lá qual for a explicação, o fato é que vivemos em uma sociedade menos preconceituosa, porém longe de ter  sanado suas vulnerabilidades e distorções sociais.

Como disse um dia Belchior “o que algum tempo era jovem novo, hoje é

Antigo”. Esse dinamismo então nos convida a entender que  tão grande quanto os avanços, são os novos desafios que temos que vencer. Se nos orgulhamos por viver em uma sociedade mais cidadã que passa a reciclar lixo, convive cada dia melhor com as diferentes orientações sexuais e trás para seus debates assuntos referentes a o que até bem pouco tempo entendiam por segmentos dignos apenas de pena e ajuda, por outro lado não podemos jogar para debaixo do tapete fenômenos como o consumismo exacerbado,  a  violência urbana, os  índices crescentes de depressão, e o surgimento de novas drogas.

São inúmeras as reflexões e hipóteses apresentadas atualmente para esse momento, que tenho dito se apresenta como um paradoxo da evolução. Assim temos convivendo juntos a liberdade de expressão e o medo de sair nas ruas; a certeza de poder amar quem quer que seja e pessoas se sentindo cada vez mais sós; o aumento no poder de compras e a banalização das conquistas.

Nossos avanços, no entanto, devem ser valorizados e não identificados como culpados para nossos grandes problemas sociais. Muitas conquistas se perdem em meio ao discurso da turma do quanto pior melhor. Fica fácil então dizer, “se fosse como antigamente não teríamos esse problema”! Isso então se equivale a pensar que, “se eu pudesse continuar com meus preconceitos e discriminações a coisa não seria dessa forma

No fim das contas o fato concreto é que a contemporaneidade nos convida abrir mão de algumas de nossas convicções para enfrentar juntos, grandes inimigos comuns. Dentre tantos destaco o crack, droga barata que tem em seu nome uma palavra que soa equivalente a adjetivação que damos àqueles que se destacam em suas atividades. O crack no mundo das drogas se destaca pelo baixo custo para o cliente final, auto nível de dependência e poder avassalador na desconstrução de vínculos familiares.

Esse é o pior do time de tantas coisas ruins que assombram a sociedade em que vivemos. Assim estado e sociedade, precisam trabalhar juntos, entendendo que nesta guerra muitos já foram os mortos, e que em tempos de cidadania a responsabilidade deve ser compartilhada  por todos nós.

Dos filhos deste solo és mãe gentil, pátria amada Brasil!

Quem já ouviu Patrus Ananias falar, com certeza sente o coração bater mais forte quando houve esse trecho do hino nacional. O Ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome transformou nosso hino em uma profissão de fé, e capitaneando uma equipe enxuta, porém determinada, provocou uma revolução silenciosa no país.

A verdadeira mãe gentil tem ouvido seus filhos, por meio de instâncias legítimas de participação popular e os tem feito verdadeiros cidadãos. Titulares de direitos e protagonistas na construção dos serviços, programas, projetos e benefícios a eles destinados, nós, filhos dessa pátria amada, vimos um ministro derrubar o muro que sempre separou desenvolvimento econômico e social.

Patrus mostrou ao Brasil que o bolo só cresce, à medida que todos os interessados participem batendo a massa.

A mãe orgulhosa por comprar um achocolatado para melhorar a merenda do filho, o pai que trouxe novas escovas de dente, não necessariamente são assalariados. A transferência de renda trouxe novos consumidores, que exercem a cidadania dando sua contribuição para o movimento e fortalecimento da economia.

Patrus sai do MDS deixando pilares sólidos que aproximam inclusão produtiva, assistência social e transferência de renda. Assim a pátria amada e mãe gentil pode se orgulhar de mostrar ao mundo seus filhos cada vez mais prósperos.

Ela sabe que seus filhos não fogem à luta, e que Patrus, filho apaixonado mineiro de nascimento e homem sem fronteiras por opção, lutará sempre, onde estiver, para que seus risonhos lindos campos tenham mais flores, alimentos, crianças na escola e trabalhadores dignamente alimentados. Para que seus bosques tenham mais vida e suas cidades mais cidadania, participação democrática e controle social.

Noel Online

Esses dias fiquei pensando como seria legal se eu encontrasse em meu messenger ou Skype, um pedido de adicionar contato, de nosso querido e bom velhinho. Há quem diga que ele não está para essas tecnologias, mas duvido! Um homem que ao longo dos anos viveu lendo cartinhas, com certeza se apaixonaria por esses novos brinquedos.

Mas deixando as hipóteses de lado, o fato é que o papo seria pra lá de agradável. Em primeiro lugar iria tentar consensuar com ele qual a melhor forma de me dirigir; já ouvi falar que bom velhinho é politicamente incorreto e que talvez; solícito homem da melhor idade fosse mais adequado. Pessoalmente tenho dúvidas, pois acredito que a melhor idade é aquela que vivemos.

Mas continuando a prosa, teria que entrar em um assunto difícil para nós dois. O dia que descobri que ele não existia! Foi uma data triste; Tentei rebater as afirmações, mas primos e amigos traziam provas contundentes, devidamente coletadas para serem apresentadas no ato da revelação. Anos mais tarde descobri que quem mentia era toda aquela garotada, que lutava contra um fato mais que concreto: é claro que Noel existe! Aliás está em praças, shoppings, filmes e no imaginário de músicos, cineastas, pais e filhos.

A confusão que ele talvez por vaidade, não fez questão de esclarecer na época por um simples e-mail ou por telefone estava no entendimento do custeio e da logística de entrega dos presentes. Em um mundo cada vez mais globalizado, porque logo ele não iria aderir à “terceirização”?

Um outro assunto que não poderia deixar de lado, seriam as constantes acusações a ele atribuídas, de ser na verdade o pai do consumismo. Pessoalmente fico me perguntando até onde isso é verdade? Um cara que já recebeu pedidos de fubecas e petecas, não deve ser o único culpado de desejos modernos bem mais complexos. Arriscaria dizer que bem antes dele vem a mídia. Apresentadores e apresentadoras de programas infantis estimulam constantemente as crianças a pedirem um brinquedo, uma nova guloseima, uma roupa do herói da temporada, desconsiderando as datas ou o bolso das famílias. Há fora isso, os papais e mamães em casa que não são “Noéis”, e acabam por vezes adotando o consumo como meio de vida. Trabalham para comprar, um novo terno, um novo sapato, um novo carro, independente de suas necessidades e de implicações ambientais ou sociais. Compram o pirata sem saber quem produziu, ou se recebeu para produzir. Compram em suaves prestações, sem planejar se ao longo da vida do carnê elas serão realmente suaves ou mesmo sem refletir se era realmente necessário, trocar o celular ou o televisor da sala.

Por fim antes de cair a conexão, me apressaria em parabenizá-lo. Ele faz parte de uma categoria profissional que tem por missão fazer sorrir e sonhar. Homens e mulheres são “Noéis” no Brasil e no mundo independente da temperatura, das condições do trânsito ou do poder aquisitivo de seu público. Cantam, dão balinhas e ao fim do dia, cansados, voltam para suas casas com uma diária que talvez não garanta o saco cheio, mas com certeza a “barriga cheia” de seus familiares.

Na pessoa do papai Noel, quero saudar a todos que estiveram comigo direta ou indiretamente em 2009. Colegas do trabalho, equipe e conselheiros do CNAS, amigos, alunos e familiares; Companheiros da ONCB, da Avape e de todo o movimento de luta por direitos; Aqueles que me acompanham no blog, no jornal e na TV.

Não tenho dúvidas que inclusão e cidadania também se conquistam com sonhos, com sorrisos e com a alegria do pouco ou muito da criança que ainda existe em nós. Que possamos em 2010 mantê-la viva, através de nossas posturas e condutas. Assim, sejamos menos preconceituosos e mais receptivos aos diferentes, menos consumistas e mais conscientes quanto ao nosso papel no planeta, menos donos de nossas verdades e mais abertos à novas idéias.

Hou Hou Hou.

Um Feliz Natal Inclusivo e um Ano Novo repleto de cidadania, saúde, amor e paz.

Até 2010!

Um dia chega O DIA.

Nessa semana comemoramos o Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência. São vinte e sete anos de envolvimento de cada vez mais pessoas e segmentos organizados na luta pela garantia de direitos e por uma sociedade realmente de todos que dela fazem parte.

Hoje temos muito o que comemorar e muitas lutas a serem empreendidas.  Chegamos ao mercado de trabalho, às universidades e aos órgãos públicos. Tivemos inúmeras conquistas junto aos poderes legislativo, executivo e judiciário.  Levamos o Brasil ao status de signatário da Convenção Internacional da ONU, e caminhamos para a consolidação do país como potência paraolímpica.

Nossa luta então toma outros rumos. Nossos desafios agora são por dias que tenhamos a inclusão compreendida para além dos discursos. Talvez seja o momento de refletirmos o quanto caminhamos no campo das idéias, deixando para trás ações e ferramentas fundamentais para o dia-a-dia de milhares de pessoas com deficiência. Incluir uma criança no ensino regular sem o Braille, por exemplo, significa artificializar um discurso produto de tantas lutas históricas.

Buscamos agora dias em que seremos respeitados enquanto consumidores, tendo produtos pensados não por uma pretensa ação de responsabilidade social da empresa a ou b, mas sim por coerência mercadológica.

Nossa luta é pela cidadania nas horas vagas. Pelo dia que teremos teatros, cinemas e programação televisiva com libras, áudio-descrição e bares e baladas, prontos para receber sem barreiras arquitetônicas e atitudinais.

Um dia chega o dia em que nosso dia de luta será o dia de luta do Brasil. O dia em que todo brasileiro saberá da importância dessa causa e valorizará a história daqueles que garantiram nossos direitos até aqui.