O que tem ali?

SCFV

Em meio a correria do cotidiano, o retorno para casa e o bate-papo sem pressa de Paula e Cristina, tornavam leve os mais de trinta minutos de caminhada entre a grande fábrica de peças automotivas onde as duas trabalhavam e o bairro tido por muitos como distante, porém para as amigas o mais perto possível daquilo que muitos chamam de aconchego do lar. Após tomar uma água de coco na barraca do Zeca, as duas ganharam fôlego e seguiram a passos largos continuando a conversa iniciada ainda no trabalho sobre o futuro dos filhos, vez ou outra sendo interrompida por cenas e promoções que saltavam aos olhos mesmo que não quisessem. Paula contava que a filha Ana pudesse seguir carreira na saúde, pois ela própria sempre sonhou com o mundo da enfermagem. Cristina queria ver o filho estudando, não importava o que fosse, ela repetia sempre que esse seria o único caminho para que o moleque pudesse ter uma vida melhor e mais tranquila do que a dela e do marido. Depois de cruzar o calçadão repleto de lojas com atrativos, que a todo tempo se transformavam em pequenas paradas das amigas para especular os preços. Paula e Cristina viraram à direita, e seguiram rumo a Av. Loas. Tratava-se de uma grande via, com uma subida difícil de vencer, mas que valia a pena ser percorrida, pois levava até a praça da cidadania, um espaço arejado, repleto de árvores, pássaros e pessoas que reconheciam naquele lugar o melhor ponto de encontro da comunidade.

Na altura do número 1993, Cristina mostrou para a amiga um prédio laranja com várias crianças, jovens e familiares chegando e saindo. “Olha lá, o Scolari vem sempre aí”. Por mais que fosse comum, Paula sempre ficava incomodada quando ouvia o nome do afilhado, preferia chamar o guri pelo apelido de Larinho, para evitar ainda mais bulling e constrangimentos. A mãe e o pai apaixonados por futebol, decidiram homenagear o técnico da seleção brasileira campeã de 2002 ano que o garoto nasceu. Como Luis Felipe ficaria muito óbvio segundo Paula, o maridão Augusto decidiu inovar, foi então que optaram por Scolari, mas aproveitaram para também reverenciar o Fenômeno: Scolari Ronaldo de Souza – uma pena não terem previsto os 7 a 1, doze anos depois.

“O  que que tem ali Cristina?”

“O nome é serviço de convivência e fortalecimento de vínculos! Nossa, demorei para guardar isso menina, e foi o povo lá do CRAS que recomendou no dia que fui lá para conversar sobre o Larinho”. Cristina continuou: “Depois que ele começou a vir aí, eu também já fiz essa pergunta algumas vezes e cada vez, é uma resposta”. Paula surpresa questionou, “eita, como assim?”

Cristina respondeu: “pois é, quando perguntei pela primeira vez, ele disse que era respeito, pois estavam fazendo uma conversa sobre os nomes de cada menina e menino”.Nossa, como assim? perguntou Paula. “Pois é, conversaram entre eles, saíram para assuntar nos comércios da região, foram até na igreja e no centro do Pai Lorival”. O Scolari disse que mesmo reconhecendo que era diferente todo mundo passou a respeitar o nome dele.”

– “Uai Cristina, ainda não entendi, o que realmente ele vai fazer lá, fica só falando de nome? ” “Imagina, diz ele que lá também tem desenvolvimento da autonomia. Você acredita, que eles vão conversar com os vereadores, já foram na associação comercial, e estão fazendo com nós das famílias, umas conversas bacanas sobre nossos direitos…  Os meninos estão ensinando a gente comadre! ”

Cristina de repente parou de caminhar, olhou reflexiva para o prédio laranja que a essas alturas já havia ficado um pouco para trás e falou um pouco mais baixo, “acho que agora eu já sei o que é que tem ali!

– Então me diga mulher! disse Paula sorridente, já imaginando procurar o CRAS para ver se Ana também poderia começar a frequentar o tal serviço de…….., e já não lembrava mais o nome completo.

“Ali tem vida comadre! Os meninos aprendem jogar bola lá na quadra do clube do bairro, tão começando a tocar um instrumento com a banda da igreja, estudam muito na escola, e chegando ali, vivem e aprendem a viver. O bom é que fazem isso tudo com as famílias e a comunidade”.

Paula ficou em silêncio por alguns minutos e quando estavam chegando na praça decidiram sentar para tomar um ar. A mãe da Ana retomou a conversa meio afirmando meio perguntando, –  “caramba comadre, que coisa boa se tivesse esse tal serviço no nosso tempo “. – “É verdade minha amiga, acho que muitos amigos não seriam perdidos por besteira, uns preconceitos sem sentido, brincadeiras maldosas, umas ideias velhas que a turma só ficava repetindo, sem contar os lugares e as pessoas que a gente poderia ter visto com o olhar de criança, sem precisar crescer para chegar até lá. O Scolari, uma vez disse para o pai que descobriu lá no serviço, que a cidade é feita para todos, e que não tem lugar para rico, lugar de pobre. Lá no serviço, tem meninos de toda a condição social, vai até criança com deficiência, é impressionante. Eles foram até no teatro, e agora tão até querendo fazer uma peça”.

Paula levantou, e convocou a amiga: –  “Então vamos seguir para casa.  Quero ainda hoje ir lá no CRAS para matricular a Aninha nesse lugar. Minha menina merece viver e conviver mais e melhor.”

Quantos Bernardos?

1_bernardo-163617Creio que esse seja um dos textos mais difíceis que já escrevi. Complicado, não pela linguagem, tão pouco por minhas convicções, mas muito pelo horror do fato em si.

A morte de uma criança por si só já é algo que nos incomoda e paralisa. Trata-se da inversão lógica sustentada pela ideia que nos faz crer no milagre da vida, materializada pelo desafio de se visualizá-la enquanto jornada a ser vivida e vencida.

Assim, nosso assombro se torna maior quando a tal caminhada é interrompida propositadamente. Pior que isso, quando o feitor de tamanha crueldade, é aquele ou aquela, responsável por criar, proteger, enfim, por fazer com que a beleza de viver seja consagrada, com sentimentos e valores básicos como segurança e amor.

Nossa sociedade então assiste sem palavras e sem respostas notícias recorrentes de pais que, com requintes de planejamento e perversidade, roubam a vida de seus filhos. Tais homens e mulheres, ainda se defendem, negam, e tentam transformar suas aberrações de conduta em objeto de retóricas jurídicas passíveis de defesas e atenuação de eventuais penas em tribunais.

Notem que, de repente, o bizarro, o monstruoso, enfim, a bomba que renega todos os nossos valores seculares, acaba se resumindo à disputa de programas sensacionalistas de fim de tarde por audiência, e de advogados por notoriedade, mesmo que, para tanto, verdadeiras bestas feras possam vir a ser absolvidas. O Brasil avançou com a promulgação de uma constituição cidadã, garantidora de direitos, documento pactuado e pensado, para trazer aqueles mais vulneráveis para a centralidade do que chamamos, hoje, de acesso à proteção social. Temos as Leis Orgânicas da Saúde, da Assistência Social, e o ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente. Então, o que será que está faltando?

O objetivo deste texto não é apontar respostas, até porque creio que não as tenho, ao menos na totalidade. Tenho, sim, minhas opiniões, que se forjam a partir de um misto de indignação e crença na necessidade de termos ressignificadas nossas relações sociais. Antes disso, porém, penso que se faz urgente resgatarmos nossa capacidade de indignação e mobilização. A sociedade brasileira não pode se manter anestesiada diante de feitos que afrontam seus principais pilares de sustentação. Não podemos permitir a banalização do ato de se tirar uma vida, muito menos aceitar que nossa legislação abra brechas para impunidade em situações extremas como as que tratamos aqui.

Penso que tratar desse tema neste espaço foge de minha expertise. Logo, assumo o risco de falar com mais emoção ou menos argumentos. Dito isso, acredito que vale à pena correr o risco, pois como já é dito pelo velho jargão popular, melhor errar pela ação que pela omissão.

Convido-lhes com esse pequeno artigo a também se posicionar. Devemos sim, nos colocar contrários diante de absurdos que nos fazem mal. Hoje já nos apropriamos das redes sociais, e ainda temos as conversas formais e informais, e tantos outros espaços que nos permitem expor nossa revolta e ao mesmo tempo nossa vontade de se ter um país mais humano, justo e solidário.

Tenho a esperança de que estejamos tratando de aberrações que se configuram em exceções, portanto merecedoras ainda de mais empenho para que não as vejamos se repetir.