Pelo que se protesta…

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Em julho de 2013, rapidamente manifestantes e lideranças que mobilizaram centenas de milhares de pessoas a partir das ruas da capital paulista, apressaram-se em dizer que não estavam ali apenas pelos vinte centavos. Tal posicionamento queria enfatizar que apesar de se ter por mote inicial o aumento nas passagens dos ônibus da cidade, o que fazia com que tantos fossem para as ruas eram muito outros casos e coisas. Se gritava por mais educação, mais acesso a saúde, qualidade e efetividade na segurança pública, menos privilégios para a classe política, melhor distribuição de renda, maior rigor no combate a corrupção.

Dois anos se passaram e parece que o reencontro do país com as ruas, acabou se perdendo em alguma esquina ou via tortuosa de nosso frágil ordenamento político nacional. Se temos uma democracia consolidada, marcada pela inovação e ousadia de processos e instâncias participativas, como conselhos, fóruns e conferencias, também convivemos com uma total descrença marcada pela desconfiança nos partidos políticos, e por uma ojeriza coletiva aos eleitos para ocupar os espaços nas câmaras legislativas e nos poderes executivos.

Foi neste clima que milhares ou quem sabe até milhões de pessoas saíram às ruas para protestar neste último dia dezesseis de agosto. Tomados por um patriotismo repentino, pediam a queda da presidente, exaltavam o juiz responsável por prisões da Lava-jato e até clamavam pela condenação sumária do ex-presidente, que deixou o poder com mais de oitenta por cento de aprovação. O objetivo desta coluna não é discutir ou manifestar opinião quanto ao mérito dos protestos, mas dialogar com você leitor, sobre o que de fato motiva nosso povo a protestar.

Não preciso dizer que motivos existem de sobra, contudo a pergunta que lhes trago é se de fato as pessoas têm clareza do que de fato estão combatendo ou mesmo aplaudindo. A indignação com a corrupção não pode ser maior ou menor, variando de acordo com o corrupto, a fúria com a ineficiência na gestão pública tão pouco pode ser destinada a um partido ou outro, visto que os danos decorrentes acabam sempre tendo impacto cumulativo.

Entendo que precisamos ter ainda mais gente nas ruas, porém espero que junto venha a qualificação dessas mobilizações. Brasileiros e brasileiras, precisam se perguntar, quem são os porquês de tantos novos vilões e mocinhos em nossa cena política atual.

Talvez as respostas não sejam tão simples, e pior nada agradáveis de se digerir ou mesmo de explicar. O lado bom desse possível futuro tsunami de realidade, pode ser um grande ganho de consciência cidadã, e daí para um país melhor e mais justo, tenham certeza é um pulo.

A turma contra a Copa

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Não foram um nem dois com os quais já conversei, e sim muitos dentre aqueles que se posicionam contundentes contra a Copa do Mundo no Brasil. Até aí tudo certo, tenho minhas opiniões a respeito, aliás, mesmo neste espaço, trouxe em determinado momento algumas reflexões sobre o tema. Mas voltando aos contrários à Copa, parte dos que conheço, estavam na torcida quando o Brasil se posicionou como candidato. Depois celebraram orgulhosos, com frases patriotas a escolha de nosso amado país para receber tão grandioso evento, mas agora, como um piloto de avião prestes a chegar no destino já com o combustível todo consumido, decidem que não querem pousar.

Penso que pior do que o posicionamento contraditório é a forma pela qual essa fúria tem sido externalizada. Falam-se aos quatro ventos sobre desperdício de dinheiro público na construção das arenas, mas de verdade, não se faz o debate aprofundado sobre como os recursos foram destinados, nem tão pouco em que ordem de grandeza. Ninguém discute quanto e como vieram os grandes volumes de empréstimos do BNDES, se isto será cobrado e pago;  sequer questionam  o que foi renúncia fiscal, e até o futuro do que se construiu, pensado em uma nova pauta de entretenimento e calendário esportivo para o entorno dos estádios.

Não vejo, em manifestações, pessoas cobrando a execução dos compromissos que garantiriam um enorme legado deste evento para as cidades-sede. Bem diferente disto, nossos manifestantes de ocasião querem quebrar, invadir e de alguma forma expurgar todo ódio acumulado por anos, pelo que eles chamam de burgueses.

Com esse texto, não tenho a pretensão de julgar quem quer que seja, muito menos de me colocar na condição de advogado dos organizadores do Mundial no Brasil. Penso que a conversa deve ser feita de maneira bem mais profunda e ampla.

Vimos com os saques em Pernambuco, com as interrupções de trânsito em São Paulo, e com o quebra-quebra descentralizado, que o sentido de civismo de nossos revoltosos infelizmente vai totalmente à contramão do que se poderia compreender como uma articulação engajada na perspectiva de luta por direitos.

É triste perceber que a maioria dos manifestantes pré-copa na maioria não tem clareza exata do que quer, e pior, acaba em uma progressão totalmente desproporcional, mais acusando e, apontando culpados, do que defendendo propostas ou indicando soluções.

Lamentável chegarmos a menos de um mês do ponta-pé inicial nos gramados com apenas 41%  dos compromissos firmados de infra-estrutura executados, falo de intervenções viárias, soluções de transporte público, estímulo e implementação de novos postos de trabalho no setor de serviços, isso seria o verdadeiro legado! Inadmissíveis os desvios de dinheiro público, e o super faturamento das arenas na quase totalidade. Contudo, também é igualmente doloroso constatarmos a reação imatura, e nada propositiva de nossos revoltosos de ocasião.

O povo brasileiro pode, deve e quer em sua grande maioria mostrar que sabemos receber bem, independente de tantas condições adversas já conhecidas por todos os que vivem por aqui. Alguns confundem boa acolhida, com subserviência ou “puxa-saquismo” de gringos, porém esquecem que se reafirmarmos nossa capacidade de fazer com qualidade eventos internacionais envolvendo toda a população, cada vez mais entraremos em uma agenda positiva mundial quando o assunto for turismo.

Creio que a Copa pode dar certo, apesar da incompetência suprapartidária de nossos gestores públicos. Porém espero que nossos movimentos sociais historicamente responsáveis pelas grandes transformações emancipatórias desse país consigam reverter essa onda  desenfreada de intolerância, oportunismo e  bravatas sem bandeiras, disfarçadas de pleitos democráticos. Há um bom tempo o Brasil foi redescoberto por seu próprio povo, como sendo um país de todos e para todos, logo não pode ter seus destinos decididos apenas por aqueles que decidem tomar a pátria por meio de saques de TVs de 40 polegadas, ou interdições de vias públicas, aterrorizando a população com paus, pedras e fumaça de pneus queimados.