Culto ao vencedor.

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Em análise que tratava do comportamento dos debatedores candidatos a prefeitura de São Paulo no último dia vinte e nove de setembro, o site da Folha de São Paulo retratou com palavras um dos momentos mais constrangedores da peleja. “ Líder da disputa, o tucano João Doria pôs de lado o jeito de bom moço e tratou com grosseria a ex-prefeita Luiza Erundina –logo ela, a mais frágil entre os seus oponentes.

Ao responder a uma pergunta sobre seus negócios, Dória disse que tinha uma trajetória “moderna, atual e transformadora”, em contraste com a rival octogenária”.

Três dias depois as urnas mostraram que a grande maioria da população não tinha dúvidas, queria um vencedor para chamar de seu. Alguém que não se preocupasse com vidas no transito, ou essa conversa toda de problemas complexos de mobilidade urbana, inclusão social e acesso a serviços públicos. Bastava apenas ser. uma espécie de gladiador contra o mau, neste caso “o mau chamado PT”, ou melhor um mau maior apontado pelo próprio candidato chamado política.

A vitória de Dória atendeu vários anseios reprimidos a meses. De cara deu aos haters das redes sociais, o troféu a tanto tempo esperado. Agora eles poderiam como seu líder eleito se auto proclamar vencedores, derrotando intelectuais, argumentos bem construídos ou qualquer outra coisa que viesse recheada de pensamentos mais elaborados. Deu para sair na janela, bater com ódio na panela e gritar “chupa esquerda, a que é trabalho”, estando empregado ou não.

Os pobres na periferia bombardeados por seus patrões com argumentos políticos que escrachavam suas escolhas em eleições a anos, agora apesar do desemprego, e os péssimos serviços ofertados, inclusive por aqueles que lhe apresentaram o super administrador, agora também poderiam exercer sua vingança particular. Com a vitória

do vencedor, não celebrariam entre seus iguais, mas sim com os manifestantes bem vestidos e ricos que lotaram a Paulista meses antes fazendo como disseram na televisão, “a maior festa da democracia brasileira de todos os tempos”.

Quem votou no vencedor, não optou por um projeto político, até porque o vencedor não gosta de política. Não pensou na coisa pública, já que seu olhar é sempre para o privado. Ele administrará a cidade como empresa, mas ainda não se sabe que tipo de empresa. Aliás caberia uma pesquisa para saber, qual o nível de conhecimento daqueles que elegeram o vencedor em relação aos tantos negócios que o tornaram milionário?

Certa vez Abraham Linco disse, “O campo da derrota não está povoado de fracassos, mas de homens que tombaram antes de vencer“. O prefeito eleito de São Paulo não precisou tombar, venceu logo na primeira eleição, pois seus eleitores estavam também ávidos por alguma espécie de vitória, fosse ela qual fosse. Resta agora saber, além do PT, da política, e de seus demais adversários diretos quais serão os próximos derrotados por super João Trabalhador?

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blogpapa

Em tempos em que se pode opinar por meio de botões das redes sociais, curtindo, compartilhando e comentando, cada vez mais as pessoas ganham coragem para se posicionar sobre tudo e todos que acabam aparecendo em suas timelines. Os que ainda não se conectaram ao mundo virtual, acompanham curiosos e porque não dizer com uma certa dose de espanto, as notícias anunciadas e repercutidas  por algum parente ou amigo, como se fossem estes, algo parecido como uma espécie de recém chegados de um planeta,  em pleno funcionamento paralelo   a “realidade sem graça” dos ainda  offline.

Ontem, aguardando para pagar os pães na fila da padaria, ouvi um cara dizendo ao amigo, “eu sou Charlie! Acabei de postar”. O amigo meio sem graça, com voz um pouco confusa perguntou, “porque mano??? Desde quando você virou isso aí?”. A postura desinformada e desplugada do debate global em torno do terror, fez com que o mais novo Charlie declarado no facebook, iniciasse um sermão para o colega, digno de invocação da Nossa Senhora da Vergonha Alheia. “Caramba moleque, em que mundo você vive? Charlie é o nome do Jornal onde os terroristas muçulmanos, mataram os jornalistas franceses”! Na sequencia desta explicação já recheada de equívocos e preconceitos, vieram muitas outras frases, sustentadas por um tom de voz digno de especialista em geopolítica internacional. Já com meus pães e a conta devidamente paga, seguindo para a rua, ainda deu tempo de ouvir o rapaz “desinformado” afirmando para o amigo, “ah se é isso então, pode falar aí no facebook que eu também sou!”

As reflexões decorrentes da tragédia ocorrida na França, disponíveis em diferentes veículos de mídias tem sido riquíssimas. Tratam da necessidade de buscarmos compreender de fato o que é liberdade de expressão, nos chamam a pensar sobre a tensão vivida pela Europa diante das ameaças do Estado Islâmico, e nos emocionam diante da indignação de milhões de muçulmanos do mundo todo, frente à atrocidade cometida por pessoas que segundo eles não os representam.

Contudo, infelizmente replicando a situação vivida a partir de tantas outras polêmicas menos relevantes, o oba-oba em torno do tema cresce de forma desqualificada e irresponsável. Milhares de pessoas repetem o mantra Je suis Charlie, sem ter ideia do conteúdo da publicação, do impacto do que é publicado para a crença de milhões de outros seres humanos, e o pior muitas vezes sem se quer saber o significado da expressão.

Pessoalmente, acho desnecessárias, de mau gosto, e ofensivas, as charges publicadas pelo Charlie. Penso ainda, que nada pode justificar um ato que tira a vida de pessoas, simplesmente por conta de seus posicionamentos, mas entendo que se faz urgente um debate amplo do que de fato entendemos como liberdade de expressão. Se alguém acha normal zombar do profeta, não pode pleitear a proibição de piadas racistas ou mesmo posturas preconceituosas.

Ao fim das contas, entendo que mais do que nunca, fica um chamado para que as pessoas, possam para além do curtir, comentar, compartilhar ou twittar, usar a internet para se informar com qualidade  antes de se posicionar. Quando opinamos, em maior ou menor medida, também formamos opinião, criamos micro tendências, formando partidários da questão a ou b. Essa capacidade que agora ganha força nos espaços virtuais, deve nos fazer pensar  que temos uma imensa responsabilidade para com aquilo que tornamos público, portanto devemos nos preparar minimamente antes de clicar, sobre qualquer que seja o assunto.